Repúdio à estupidez

iG Minas Gerais |

A coluna da semana passada, neste espaço, descreveu a continuada e perigosa violência que tem sido presente nos chamados protestos populares, que nos últimos tempos vêm sendo usados para que grupos traduzam seu inconformismo com o que lhes incomoda ou se lhes impõe. Protesta-se contra a realização da Copa do Mundo, que já está no meio do caminho e vai indo de razoável pra bem; contra a falta de oferta, pelo poder público, de políticas de saúde e de educação gratuitas e de qualidade, que todos reconhecemos como demandas justas e historicamente mal abordadas pela União, pelos Estados e pelos municípios. Protesta-se ainda contra o caos dos transportes de massa, ou a falta deles, e a ação das polícias quando prendem ou endurecem o jogo contra delinquentes, mas também se protesta contra a impunidade dos criminosos, nunca alcançados pelas mãos da lei. Para cada tipo de protesto há um formato em serviço. Contra a Copa, vaia-se a presidente da República, desrespeita-se a autoridade pública, e quebram-se monumentos e símbolos do evento. Contra a falta de saúde, invadem-se postos de atendimento e hospitais, agridem médicos, enfermeiros, auxiliares e danificam instalações. Escolas idem, e os agredidos, além dos prédios já em péssimas condições, muitas vezes são os professores. Esses já são agredidos e desrespeitados pelos próprios alunos, que há muito não estão interessados em educação. Se a bola da vez for o transporte, queimam-se ônibus, quebram-se abrigos e a sinalização de trânsito. Na semana passada, grupos de uma comunidade carioca atiraram em PMs porque esses insistiam em repreender o tráfico de drogas e prender marginais e armas. A comunidade reagiu a tiros. Várias manifestações se dirigiram à coluna e a esse colunista, na sua maioria de apoio, mas várias outras de repúdio ao texto e revolta para justificar atitudes classificáveis como apropriadas, e não atos de selvageria, de delinquência, de estupidez. As que recomendavam a barbárie apoiavam tal preferência como a única forma disponível de que o povo pode lançar mão e, assim, exigir o atendimento a suas necessidades. É óbvio e cristalino que, num país como o Brasil, a acomodação não vai nos levar a lugar nenhum. A lugar nenhum mesmo. Mas acharmos que depredando bens, públicos e privados, incendiando ônibus, invadindo prédios e instalações, saqueando lojas, destruindo concessionárias de veículos e agências bancárias vamos construir direitos, garantir o atendimento democrático e efetivo do Estado aos que dele dependem, ampliando a oferta de soluções públicas é, no mínimo, a generalização da estupidez, que precisa ser evitada com todo rigor.

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