Escola de chorinho no bar leva jovens músicos ao exterior

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Músicos trocam experiências em roda de choro no bairro Serra
GUSTAVO BAXTER / O TEMPO
Músicos trocam experiências em roda de choro no bairro Serra

Entre uma canção e outra que ecoa da esquina das ruas do Ouro e Amapá, jovens e senhores se mantêm reunidos em volta de uma mesa de centro de madeira para dividir a cerveja, a cachaça e os cigarros picados. Sem cobrar um centavo do público que vai ouvir canções de Pixinguinha e Waldir Azevedo, só para aquecer o repertório, o diversificado grupo de instrumentistas frequentador do Bar do Salomão, no bairro Serra, acabou criando a maior escola de chorinho informal existente hoje em Belo Horizonte e começa a exportar talentos para shows na Europa.

Idealizada há cinco anos pelo bandolinista Emanuel Fulton Madeira, 62, a roda foi ganhando corpo aos poucos, até começar a ser frequentada por craques como o trompetista Silvério Pontes, Paulinho Pedra Azul, o trombonista Zé da Velha e até os metaleiros do Sepultura. “A roda nasceu pela necessidade dos músicos tocarem, eles queriam praticar e não tinham tantos locais para isso na cidade. Então fizemos um lugar democrático, onde a ideia era chegar e tocar, sem discriminação de idade”, lembra Madeira.

As regras da roda são simples: sempre deixar dois ou três bancos vazios para acomodar músicos que queiram chegar, não ler partituras e tocar canções menos conhecidas. “Não gostamos de ler partitura enquanto tocamos porque isso prende o músico. Além disso, temos a missão de apresentar canções menos conhecidas do choro”, completa Madeira.

O dono do bar, que está no mesmo ponto há 70 anos, Salomão Jorge Filho, diz que, antes da roda de choro, o estabelecimento era praticamente frequentado por homens. “Era só homem que encostava no balcão para falar e assistir futebol. Hoje, quase a metade do público é feminino. Vem comer um petisco, ouvir a música boa que não para e até paquerar. É uma mistura boa da velha guarda e dos jovens”, diz.

A mistura entre gerações, aliás, é uma das principais características do Bar do Salomão. Enquanto André Alvarenga, 27, experimenta acordes no violão de 7 cordas, o também violonista Geraldo Alvarenga, 57, fundador do Sarau Brasilidade e membro do projeto Minas ao Luar, busca um espaço na roda para se acomodar junto com o violão de 6 cordas. “Eu estava olhando o André tocar e minha mão começou a coçar de vontade de entrar também. Venho sempre encontrar o pessoal porque aqui é minha segunda casa. Fiz mais de 200 choros na carreira e continuo a aprender”, diz Alvarenga.

Do outro lado da roda, Thiago Balbino de Almeida, 29, sola no bandolim enquanto Tião do Bandolim se prepara para conectar o seu instrumento a um amplificador. “Eu venho só dar canja. Gosto mais de ficar vendo os meninos tocarem porque eles fazem umas coisas novas, sempre levam a gente a repensar as músicas. É um aprendizado sem querer, na mesa de bar”, diz Tião.

O aprendizado despretensioso vai levar alguns jovens talentos do choro mineiro para a Europa, em uma série de shows entre 24 de outubro e 8 de novembro em Lisboa, Paris e Madrid. Sob a batuta de Emanuel Madeira no violão de 6 cordas, Pablo Dias, 23, é um dos garotos que embarcam para o velho continente em breve, para tocar ao lado de André Amaral, 27, no violão de 7 cordas, Luiza Falcão, 26, no pandeiro, Thiago Balbino, 29, no bandolim, e Pedro Alvarez, 27, na flauta transversal. “Quando eu vim tocar no Salomão, eu achava que o choro era uma coisa e descobri que é outro. É um sentimento que você precisa ser tomado por inteiro para entender. Uma portuguesa que veio ouvir a gente um dia parece ter entendido e nos convidou para tocar lá fora. É uma honra isso”, diz Pablo Dias.

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