É choro, sim, mas de alegria

Com pelo menos uma roda de chorinho por dia na cidade, Belo Horizonte hoje é considerada a capital do choro no Brasil

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

União. Dentro do Bar do Salomão, a roda de choro acontece das 18h às 22h, mesclando gerações
GUSTAVO BAXTER / O TEMPO
União. Dentro do Bar do Salomão, a roda de choro acontece das 18h às 22h, mesclando gerações

Às 18h de toda segunda-feira, o som do cavaco começa a soar de improviso no Bar do Salomão, acompanhado de violão, flauta, pandeiro e bandolim. É no boteco apertado entre as ruas do Ouro e Amapá, no bairro Serra, que todo mundo começa a chorar e não para mais durante a semana inteira. “Mas ninguém derrame uma lágrima, por favor, porque esse choro é só de alegria, ouviu, doutor?”, filosofa aos gritos um bêbado encostado no balcão do bar. Mesmo tendo poucas casas que abrigam shows de chorinho, Belo Horizonte tem hoje o título de capital do choro no Brasil, com pelo menos uma roda de chorinho a cada dia da semana.  

Se há vinte anos não havia sequer um bar que abrisse espaço para o chorinho na capital, hoje em dia são quase 100 músicos ativos em pelo menos 12 espaços com programação dedicada ao choro. “Temos mais de 90 associados que tocam com frequência na noite, são figurinhas marcadas nos bares. E todo mês, temos pedidos de novos associados”, diz o presidente do Clube do Choro em Belo Horizonte, Jonas Cruz.

Primeiro bar dedicado ao chorinho na cidade, o Pedacinho do Céu foi inaugurado em 1996 pela viúva de Waldir Azevedo. Hoje, o proprietário do bar, que largou o emprego de gerente de banco para montar o espaço, avalia que boa parte dos jovens tomaram gosto pelo chorinho vendo personalidades desfilando pelo bairro Caiçara. “Yamandú Costa, Paulinho da Viola e Silvério Pontes sempre frequentaram aqui, e desde o início criei o hábito de trocar partituras, gravações e experiências musicais entre os artistas. O Thiago Delegado e o Marcos de Oliveira, hoje o melhor cavaquinista de Minas, começaram a tocar aqui. Acho que a projeção desses sucessos há 18 anos ajudou a criar o interesse em novos músicos que estamos vendo por ai agora”, diz Ausier Vinicius, proprietário do Pedacinho do Céu.

Um dos principais nomes do choro no país, o compositor carioca Maurício Carrilho lembra que, apesar de o chorinho ter nascido no Rio de Janeiro, no século XIX, a manutenção do orgulho do gênero está em Minas Gerais, graças à juventude. “O que vi em Beagá quando estive aí ano passado foi muita gente jovem tocando choro junto com a velha guarda – é a capital do choro hoje. Acredito que os músicos mais novos uniram a cultura mineira de sempre ir para o bar com o gosto recente pela música”.

Nos botecos onde se ouve cavaquinho e pandeiro de longe, não é raro ver meninos com barbas por fazer ao lado de senhores de cabelos ralos tocando Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Altamiro Carrilho, Waldir Azevedo e tantos outros mestres do choro. Mesmo tão novo, o cavaquinista Pablo Dias, 23, parece ter entendido a essência do choro. “O choro é democrático. Ele une as pessoas para tocar junto. Se um saí da roda, quebra um elo. É a companhia que faz a nossa música no bar”, diz.

Cidadão Honorário de Belo Horizonte, o violonista Mozart Secundino de Oliveira tem nome de lenda e é tratado como tal nas rodas de choro. Aos 91 anos, ele se mantém na ativa com o grupo Piolho de Cobra, aprendendo e ensinando. “Eu toquei por mais de 60 anos com o Waldir Silva. Mas hoje em dia eu continuo aprendendo um jeito novo de tocar Pixinguinha com meninos de 20 anos. Isso é demais”, diz Mozart.

Programação

Guia. O chorinho em Belo Horizonte acontece todos os dias da semana, com mais de 20 grupos e 75 músicos fazendo som em rodas de música brasileira pela cidade. Veja os dias e horários das principais apresentações: SEGUNDA-FEIRA

Bar do Salomão, às 18h (rua do Ouro, 895, Serra)

TERÇA-FEIRA

Godofrêdo Bar, às 20h (rua Paraisópolis, 738, Santa Tereza)

QUARTA-FEIRA

Dalva Botequim, às 18h (rua Ceará, 1.568, Funcionários, praça ABC)

QUINTA-FEIRA

Bar do Bolão, às 19h (rua Vila Rica, 637, Padre Eustáquio)

Clube da Esquina, às 19h30 (rua Sergipe, 146, Funcionários)

Bar do Salomão, às 18h (rua do Ouro, 895, Serra)

Pedacinho do Céu, às 21h (rua Belmiro Braga, 774, Alto Caiçara)

SEXTA-FEIRA

MOSTEIRO, às 19h (rua Santa Rita Durão, 940, Savassi)

SEXTA E SÁBADO

Bar Opção, às 20h (rua Alabandina, 619, Caiçara)

Pedacinho do Céu, às 21h (rua Belmiro Braga, 774, Alto Caiçara)

DOMINGO

A Casa, às 20h (rua Padre Marinho, 30, Santa Efigênia)

Cartola Bar, às 21h (rua Vila Rica, 1.168, Caiçara)

Feijoaria*, às 14h (rua Desembargador Fernando Bhering, 244, Dona Clara)

*a roda de choro no “Feijoaria” só acontece no primeiro domingo do mês.

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