Pitty de volta às raízes do velho rock n’ roll

Quarto álbum da roqueira baiana chama guitarras de volta para falar sobre perdas

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Pose. A cantora Pitty pousou para sessão de fotos do novo disco com a sua gata chamada Preta
Giovanna Cecchini/divulgação
Pose. A cantora Pitty pousou para sessão de fotos do novo disco com a sua gata chamada Preta

Ao que tudo indica, a cantora Pitty precisava respirar rock n' roll de novo. Depois de cinco anos sem gravar um álbum novo, a baiana de 36 anos apresenta agora o recém-lançado “Sete Vidas” (Deck Disc), sucessor de “Chiaroscuro” (2009). Completamente influenciada por perdas marcantes no ano passado, como a do ex-guitarrista da banda Peu, do vocalista Chorão e do baixista Champignon do Charlie Brow Jr., Pitty deixou de lado os violões sensíveis do duo Agridoce, formado ao lado de Martin Mendonça, para voltar com a carreira solo e gravar canções mais duras, apoiadas em fortes riffs de guitarra e nas cicatrizes que ainda coçam.

Ao todo, são dez faixas autorais que abusam da velha e básica receita do rock inglês: baixo, bateria e guitarra, sem grandes invenções. Mixado pelo britânico Tim Palmer, que trabalhou com Ozzy Osbourne, U2 e David Bowie, o disco foi gravado no estúdio Madeira, em São Paulo, sob a batuta do produtor Rafael Ramos, que teve a ideia de captar com todos os instrumentos simultaneamente – para dar um efeito “ao vivo” e uma pegada de garagem espontânea às novas músicas de Pitty.

Nesse sentido, a banda renovada da cantora contribui para um som mais envolvente e agressivo da baiana. Na canção “Um Leão”, enquanto Pitty canta sentimentos sombrios como “Traz alguém que saiba de amor / Sem o porém de adestrador / Pois nunca há de haver feitor aqui”, surgem bons rifs do guitarrista Martin Mendonça e viradas de bateria fora do padrão das baquetas de Duda Machado.

Já a faixa “Lado de Lá” surpreende com um coral ao estilo gospel entoando a súplica sentimental do pós-refrão (“guarda pra mim um bom lugar”), além de um arranjo de bateria rebatida e teclado suave e bem marcado. No baixo, a entrada de Guilherme Almeida no lugar de Joe Gomes – que saiu da banda no ano pasasdo e trava uma briga judicial com a cantora atualmente – parece ter trago mais harmonia à banda de apoio de Pitty para atingir o objetivo desejado velho rock n’ roll.

MAINSTREAM. Porém, apesar de boa parte das canções ter um peso grunge notável, o excesso de distorções e efeitos de sintetizadores sobre a voz de Pitty fazem o álbum soar mais maistream do que com a cara de um rock “cru e direto”, como a Deck Disc define o som de “Sete Vidas”. Em certos trechos da faixa de abertura, por exemplo, “Pouco”, a voz de Pitty se mistura à tantos efeitos eletrônicos, que parece indecifrável, como se fosse cantada por um robô: “Dor exposta é para doer / Tão mais fácil se entorpecer / Oscilando no eterno vir a ser”.

Entre letras não tão fortes que ainda remetem ao início da carreira e explosões sonoras pontuais, “Sete Vidas” parece carregar seu recado na faixa-título, como uma espécie de cura das feridas que a cantora Pitty acumulou – a última delas, a da gata Preta, que estampa a capa do álbum e acabou falecendo poucos dias após a sessão de fotos, em São Paulo. Em cima desses signos, Pitty canta em forma de mensagens cifradas um desejo de viver e fazer música maior do que as suas dores, que ainda não foram cicatrizadas: “Só nos últimos cinco meses / Eu já morri umas quatro vezes / Ainda me restam três vidas para gastar”.

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