Arte sequencial

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Sou leigo em relação à criação em quadrinhos, exceto por uma fase na adolescência em que devorava gibis, época em que ansiava a chegada nas bancas de novas edições das histórias de personagens como Recruta Zero, Chico Bento, Horácio, Zorro e muitos outros. Como jornalista, acompanho a certa distância esse universo, mas consciente da profissionalização contínua dessa produção artística que tem uma legião de fãs mundo afora e que movimenta um expressivo mercado editorial. Por agora, acabei conhecendo um pouco mais do assunto ao me interessar por ler “Will Eisner – Um Sonhador nos Quadrinhos”, livro escrito por Michael Schumacher, não, não o piloto de fórmula 1, mas o autor norte-americano que assina outras biografias de nomes como o músico Eric Clapton e o cineasta Francis Ford Coppola. Esse quadrinista nova-iorquino, que nasceu em 1917, foi um obcecado por sua atividade e se dedicou a ela até o fim da vida, no início de 2005, aos 87 anos. Apreendi que o desenvolvimento dos quadrinhos (HQs) tem a contribuição de diversos importantes artistas ao longo de sua evolução, mas para se ter uma ideia da relevância de Will Eisner, ainda em vida ele foi escolhido para dar seu nome à principal premiação internacional para esse tipo de publicação. A ascensão de Eisner se deu principalmente com as histórias do detetive Spirit, mas ele conseguiu revolucionar o segmento até ao criar manuais educativos para o Exército norte-americano e na maturidade criou obras antológicas como “Um Contrato com Deus”, “A Força da Vida” e “Ao Coração da Tempestade”. Uma premissa que esse criador pôs em prática em seu trabalho foi demonstrar que os quadrinhos não são necessariamente uma arte dirigida só ao público infantojuvenil e podem abrigar narrativas densas e mais complexas, assim como se encontram nas obras literárias. Conta-se que, com o objetivo de demarcar esse campo mais amplo das HQs, já havia sido criado o termo “graphic novel” (novela gráfica ou romance gráfico), mas a expressão teria se popularizado ao ser cunhada por Eisner para definir suas obras para adultos. A primeira vez que ele a usou foi para explicar a um editor o que seria o conteúdo do volume “Um Contrato com Deus”, que tratava da sobrevivência na cidade grande a partir de personagens que viviam num mesmo cortiço em Nova York e enfrentavam dificuldades diferentes. Eisner também gostava de dar aos quadrinhos o nome de arte sequencial. Nessa época Will já passara dos 60 anos e em seguida vieram outras graphic novels com temas densos, até a sua última obra, “O Complô”, de 2004, em que buscou desmascarar um falso livro de propaganda contra os judeus, que circulou no começo do século XX e que ainda teimava em dar as caras. Curioso observar que muito do que Michael Schumacher coletou para o livro veio do acervo de Will Eisner preservado na universidade estadual de Ohio, nos EUA, uma prática museológica ainda incipiente no Brasil. Depois de terminar a biografia de Will Eisner, li “Tungstênio”, divulgada como a primeira graphic novel do Marcello Quintanilha, conhecido quadrinista brasileiro de Niterói que vive em Barcelona. A envolvente narrativa verbo-visual em preto e branco se passa em Salvador, a maior parte dela próximo ao Forte da Barra, quando um bate-papo entre um ex-sargento reacionário e um vendedor de drogas é interrompido pelo barulho de uma explosão. Eles correm na direção do barulho e descobrem que dois homens estão pescando com uso de bombas. A partir daí a trama se desenrola com mais personagens e novos núcleos temáticos tratando de amor, religião, o universo policial, emendando thriller e crônica social que se passa na Bahia, mas poderia ser em qualquer centro urbano brasileiro. Com um traço vibrante, Quintanilha tem domínio e pegada para prender a atenção do leitor do início ao fim. Estou mais interessado em aprender sobre HQs.

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