‘Acho que estamos vivendo no apogeu da era do culto ao corpo’

Paola Altheia, 27 Bailarina e estudante de nutrição Criadora do blog Não Sou Exposição

iG Minas Gerais | Aline Reskalla |

Arquivo pessoal/Divulgação
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Paola Altheia, 27, é bailarina e estudante de nutrição. Ela nunca foi gorda, mas sentiu na pele a glamourização da magreza e o medo de engordar. E decidiu protestar na internet contra essa fábrica de infelicidade, criando o blog Não Sou Exposição.

Quando você é criança ou adolescente, ouvir “que coisa boa” quando você emagrece pode ser muito perigoso. Pode desencadear transtornos de imagem corporal e de comportamento alimentar. O alerta é da bailarina e estudante de nutrição Paola Altheia, 27 anos. “Questionei isso bastante. Ouvia apenas que ‘é assim mesmo’. Pois bem, não é!”, decidiu. A bailarina nunca mostrou sua imagem no blog (naosouexposicao.wordpress.com) por considerar que isso não é importante, mas concordou em se identificar para O TEMPO. Ela dá palestras sobre imagem corporal e autoaceitação. Na sua opinião, é importante entender que o valor pessoal não está na aparência nem no tamanho do corpo. “O amor-próprio é, inclusive, fator fundamental para os dançarinos, para que possam se expressar com satisfação e segurança”, diz. Não só na dança, mas em toda profissão. Fale um pouco da sua história, da motivação para criar o blog.

O nascimento do blog tem muita relação com a minha experiência de vida, pois eu fiz e ainda faço dança clássica, sou muito ativa, adoro atividade física e sou estudante de nutrição. Ambos os meios (nutricionistas e bailarinos) confundem de maneira muito pronunciada o valor pessoal com gordura presente no corpo e dão uma importância desmedida à aparência. Por que criar um blog?

Criei o blog para alertar que imagem não determina valor, e a nossa tarefa no mundo não é sermos bonitos. Testemunhei muitos exemplos de preconceito, obsessão e preocupação exagerada com a aparência e o peso. Conheço muito bem o sofrimento causado por todas essas questões. Gosto muito da nutrição porque eu quero ser profissional da saúde. Eu disse: saúde. A humanidade sempre celebrou o estético, as formas do corpo, o plástico, o belo. A diferença, hoje, é o papel central da manutenção de uma “bela imagem” nas nossas vidas. Ter um corpo magro e encaixado nos padrões estéticos é, para muitos, a coisa mais importante do mundo. Que balanço você faz do blog, a repercussão dos posts, quantos seguidores são?

O blog hoje se encontra na marca das 631.265 visitas, tem 4.857 curtidas no Facebook e perdi as contas dos seguidores. Não sou um gigante na internet, mas o movimento está crescendo. Creio que isso ocorre porque as pessoas estão cansadas de sofrer terrorismo para que comam certo, malhem certo, sejam magras, definidas, belas etc. Com base em sua experiência, como fazer para se livrar da ditadura da estética magra?

De fato, é uma ditadura. E perversa. Creio que a melhor alternativa é compreendermos que isso tudo não tem a menor importância. Paremos para refletir por um momento. Nós, pessoas do século XXI, atribuímos valor pessoal à aparência. E as duas coisas não têm relação. O meu corpo sexy não tem relação com os atos de educar as crianças, respeitar os idosos, ser cordial com os adultos, ser honesta, não ser desleal, desumana e nem violenta. Uma belíssima silhueta (dentro daquilo que interpretamos como belo) não faz modificações positivas na sociedade. Qual é, exatamente, a transformação social promovida por uma “barriga de tanquinho”? É claro que precisamos ter uma boa saúde com uma boa qualidade de vida. Não faço apologia da obesidade. Mas um corpo saudável não é a mesma coisa que um “corpo sensual do verão”.

As coisas já foram piores, estão melhorando de alguma forma, ou o contrário?

Acredito que estamos vivendo o apogeu da era do culto ao corpo. Temos estatísticas nunca antes observadas de transtornos alimentares entre mulheres e homens, transtornos de ansiedade, obsessões com a comida, medo de engordar e níveis recorde de intervenções estéticas. Existem exigências estéticas para cada área do corpo humano, inclusive órgãos genitais, cotovelos e axilas. De alguma forma, as coisas podem melhorar com um contramovimento, como o meu e os de outras pessoas que pensam de modo semelhante, porque é de importância vital promovermos um resgate dos valores humanos e das coisas que verdadeiramente interessam em nossas vidas. Qual o post que teve mais repercussão?

Definitivamente, foi um comentário meu sobre Taryn Brumfitt, uma mulher norte-americana que é a responsável pelo Body Image Movement. Taryn publicou a foto do seu corpo não malhado e não esculpido em resposta à famosa provocação do mundo da musculação “Qual é sua desculpa?”. Taryn posou para uma foto com os seus três filhos e respondeu: “Minha desculpa é que eu estou ok com isso”. Aparentemente, você, mulher e mãe, não pode de maneira alguma estar ok com isso. Você não possui essa permissão. Porque a sociedade não te deu. Você necessita urgentemente salvar seu corpo das “terríveis” transformações causadas pela maternidade. Fui alvo de um ciberataque sem precedentes promovido por fisiculturistas homens (que jamais terão filhos...) e mulheres. Precisei mudar o endereço do e-mail porque eu não dava conta de tanta gente me xingando. Não fiquei triste e não me ofendi. Eu e os meus amigos brincamos sobre isso até hoje. Sobre como eu sou uma “gorda, fracassada, feia e recalcada e que come pão francês com manteiga todos os dias”.

Por que o nome Não Sou Exposição?

Porque eu sou mulher. E eu me sinto uma peça exposta numa galeria. Desde que deixei de ser criança, sofro um sem-fim de cantadas, cobranças, opiniões sobre como deve ser a aparência do meu corpo e sobre qual é a receita para ser bonita. Todas as mulheres conhecem essa sensação. E eu sou uma pessoa. Eu não sou exposição. Significa que eu não estou no mundo para que todos fiquem me olhando. O que você aconselha, qual mensagem você pode dar para as pessoas que lutam e não conseguem emagrecer?

Duas palavras: amor-próprio. Ninguém consegue emagrecer sendo o seu próprio rival. A nossa sociedade abomina gordos. E isso causa um sofrimento imenso. A pessoa passa a vida aprendendo que ela é feia, fracassada, preguiçosa, sem-vergonha. Depois que essa auto-imagem é criada, é muito difícil fazer um trabalho de resgate daquele eu que desprezamos. A explicação é simples: eu não cuido do que eu não gosto. Eu não cuido do que não me interessa. Eu não cuido do que eu não respeito. Cansei de afirmar que, se fazer obesos sentirem vergonha e culpa resolvesse o problema, não teríamos gordos no mundo. Nenhunzinho. Primeiro aprenda a se amar e a querer o seu bem. O emagrecimento vem por consequência. Você recebe muitos comentários de garotas que sofrem com o peso e essa tal ditadura?

Já recebi vários depoimentos do Brasil todo, me falando sobre como o blog ajudou no tratamento e na cura de transtornos alimentares e também depoimentos de pessoas que desistiram de buscar a perfeição e a magreza por causa do blog. Algumas garotas publicaram suas histórias no blog, e é sempre uma experiência muito positiva. Fico sempre muito contente com o retorno. Tem homens entre o público do blog? Muitos?

Sim, temos homens! Eles compõem um público menor que o feminino, mas também sofrem uma grande cobrança para ser musculosos, fortes, viris etc. Há uma grande parcela de rapazes que acredita que o valor pessoal é diretamente proporcional à massa magra e ao tamanho do corpo, ou seja, o volume que ele ocupa. E que não ter uma montanha de músculos faz de você “um fracassado”. Rapazes do Brasil: isso não é verdade.

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