Síndrome da felicidade: será contagiosa?

iG Minas Gerais |

Quando um cientista do comportamento, de cujo nome agora não me recordo, ainda nos anos 80, resolveu estudar um tema aparentemente abstrato e substantivamente desgastado, que é a felicidade, foi objeto de chacotas e ironias. Afinal, assim é o mundo catedrático e científico: rígido, hipercrítico, competitivo e com egos inflados na maioria dos casos. Pois bem, o raciocínio desse pesquisador era tão simples que causava controvérsia. Partindo do pressuposto de que a depressão era definida por quantificações de sintomas, por que não criar métodos que aferissem o grau de felicidade do ser humano? Assim foi sendo estruturado um trabalho com amostragem, entrevistas e experimentações, cujo fim era mapear o cérebro, correlacioná-lo com características de comportamento, personalidade, e assim por diante. O tempo foi passando, as disfunções de ansiedade e humor se alastrando feito praga, os exames e instrumentais de pesquisa se sofisticando, e não é que os atuais neurocientistas resgataram os estudos daquele pioneiro, visionário e criticado pesquisador, e hoje já existe uma ciência que se incube de tão instigante tema que é a felicidade? Chamada de “psicologia positiva” ou termos similares, essa ciência tem trazido conhecimentos sensacionais. É lógico que, se a tristeza, algo perfeitamente compatível com experiências negativas, como luto, perdas materiais, afetivas, e, portanto, uma emoção natural e fisiológica, pode se transformar em depressão (um estado de humor profundo e ligado a modificações eletroquímicas do sistema límbico, que modula emoções e estresse), da mesma forma, a alegria, presente nos momentos de satisfação, recompensa e prazer, se for exagerada, pode se transformar em um estado doentio que chamamos de “mania”, em que a euforia, o falatório, os gastos desmesurados e a sensação de poder e de êxtase são incompatíveis com a realidade. Assim tem origem um quadro psiquiátrico, atualmente chamado de “transtorno ou desordem afetiva bipolar”, no qual surtos depressivos se alternam com fases de euforia e de perda do juízo crítico de realidade. É a antiga psicose maníaco-depressiva. Ora, se somos capazes de experimentar estados extremos e inversos de humor, a ponto de se tornarem patologias e exigirem tratamentos, tal a seriedade de perdas – sociais, familiares, laborativas e econômicas, por exemplo –, será que não poderíamos ter instrumentos que pudessem nos conduzir a um estado de humor em que potencializaríamos a felicidade, evitaríamos a tendência a tanta angústia e sofrimento, inerentes ao nosso dia a dia ? O que está sendo estudado e praticado é uma forma de modificar a cognição (funções nobres do cérebro e da mente, que nos ajudam a compreender a nós e ao mundo que nos rodeia) e mudar nossos comportamentos e posturas, reciclar conceitos e gerar uma nova consciência, para percebermos e sentirmos o mesmo mundo por outros ângulos, buscando o relaxamento, o bem-estar, a satisfação e o prazer, sem termos que apelar para o uso e abuso de bebidas e drogas, que no fundo e de forma degenerativa, conduzem por breves e enganosos momentos a esse estado de felicidade, cobrando o alto preço logo a seguir, empurrando o usuário para o precipício depressivo e a destruição existencial. Pois bem, temos uma área no cérebro especializada em buscar o prazer, a satisfação, o sentimento de recompensa, a alegria e o relaxamento. Mas precisamos buscar estímulos, gerar pensamentos, perceber a realidade no que ela tem de positivo, de belo. Deixar fluir emoções e sentimentos que preexistem é uma percepção de realidade que diuturnamente nos é ofertada divinamente. O investimento na busca da felicidade nos faz renascer! Um estímulo inicial para entender a dimensão do que tento dizer aqui fica na sugestão de um documentário chamado “Happy”, que conta a história de uma pequena nação chamada “Butão”, diante da possibilidade de enriquecer toda a população construindo grandes hidrelétricas e vendendo energia para as vizinhas Índia e China. Mas esse ato teria como resultado o alagamento de planícies, a destruição de matas, vilas, belezas naturais e tradições. Foi feito um referendo, e, para surpresa das autoridades, a população escolheu ser feliz e preferiu a tranquilidade. E, graças a essa experiência, hoje no mundo, além do tal do PIB, que mede a renda de um país, existe o PIF, ou Produto iInterno de Felicidade. Da vida nada se leva, mas ser feliz não tem preço!

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