Trajetória do teatro coloca em questão sua função social

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Um dos criadores do Festival Internacional de Teatro de Palco e Rua (FIT), Carlos Rocha, observa que o teatro Klauss Vianna, apesar de ter limitações, como a ausência das distâncias necessárias para se mover os equipamentos de cenário e iluminação, entre outros, sempre foi importante para a dinâmica local. Um ponto frisado por ele é o que o espaço representa, pois foi construído como contrapartida da destruição do Cine-teatro Metrópole, na década de 1980 (leia mais ao lado), para a memória da cidade.  

“Deveriam, em vez de desativá-lo, dar uma importância maior ao teatro pelo seu valor simbólico, além das suas qualidades técnicas. Ele nasce da reivindicação da classe artística que reagiu, há mais de duas décadas, contra a demolição do Cine-teatro Metrópole. Só isso já deveria ser considerado para que ele fosse melhor cuidado”, opina Rocha.

A diretora, coreógrafa e bailarina Dudude acrescenta que outro fator a ser considerado em torno dessa situação é o impacto do teatro sobre a cultura. Ao sublinhar como a arte é aliada da educação, ela reforça a importância desse espaço para o estímulo ao desenvolvimento humano e à promoção da cidadania. “O que se produz ali contribui para o exercício de reflexões que levam o indivíduo a fazer escolhas, a aprimorar a sua percepção sobre a sociedade e sobre o bem comum. Acredito que um tribunal de Justiça deveria ficar muito orgulhoso de abrigar no seu espaço um teatro”, sugere Dudude.

Artur Ribeiro defende uma visão semelhante. Há quatro anos, quando estreou a peça “Fragmentos do Desejo”, em Belo Horizonte, ele, que é integrante da companhia Dos a Deux, observou como o teatro Klauss Vianna era especial para a montagem que trazia para cá, não só por suas configurações, mas também por sua posição geográfica. Ribeiro compara a maneira como lidamos como esses espaços com a realidade que convive na França.

Lá, o artista, nascido no Rio de Janeiro, diz que há um movimento pela preservação dos teatros que não se encontra no Brasil. Isso significa que nenhum, por menor que seja, é desconsiderado, especialmente porque esses conseguem alcançar a tarefa árdua de promover a formação de público.

“Há uma relação importante com a plateia que é fundamental e precisa ser valorizada. Os teatros espelhados pelos bairros e diversas regiões das cidades, além das porções centrais, conseguem mobilizar um público que, após se familiarizar com os trabalhos apresentados ali, cria a empatia necessária para se deslocar e ver uma peça em outro teatro mais distante. Esse olhar a longo prazo é o que falta ao Brasil”, diz Ribeiro. 

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