Bem que é da cidade

Artistas de BH defendem a importância do teatro Klauss Vianna que em breve será desativado

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Versátil. Capacidade de receber pequenas ou montagens maiores é um dos traços positivos do Klauss Vianna
GUSTAVO BAXTER / O TEMPO
Versátil. Capacidade de receber pequenas ou montagens maiores é um dos traços positivos do Klauss Vianna

Angel Vianna lembra com orgulho a homenagem ao ex-marido Klauss Vianna (1928-1992), em 1996, quando o Teatro da Telemig passou a se chamar Klauss Vianna. Reinaugurado em 2009, sob a gestão do Oi Futuro, o espaço, desde então, para ela, não só cumpre o papel de servir às artes em Belo Horizonte, mas também representa o cuidado com a memória de quem dedicou grande parte da vida à dança.  

“Aquele momento foi muito importante porque marcou um respeito pela arte de maneira muito bonita. Eu me lembro da alegria dos profissionais da dança que estavam ali”, diz a bailarina e coreógrafa Angel Vianna. Hoje, com a notícia de que o teatro será desativado, após o edifício onde funciona o Oi Futuro ser desapropriado para acolher a sede do Tribunal de Justiça de Minas Gerias (TJMG), ela lamenta que um local tão importante para a cidade seja esquecido.

“Eu fico me perguntando o que agora eles vão fazer com aquilo, se não for deixar que o teatro continue sendo a casa de vários artistas. Eu não entendo o motivo para que as suas portas sejam fechadas ao público, isso me deixa realmente chocada e triste”, relata Angel Vianna, que em 2010 se apresentou naquele espaço durante a programação do Fórum Internacional de Dança (FID).

A indagação que ela faz a si mesma também vem sendo colocada por outros diversos profissionais, tanto do universo da dança quanto do teatro, embora já esteja acertada a transferência do Oi Futuro para as salas do Palacete Dantas e do Solar Narbona, integrando, assim, o Circuito Cultural da Praça da Liberdade. A construção de um novo teatro, com capacidade para 200 pessoas – menor que o Klauss Vianna que abriga 370 lugares – faz parte das intenções do projeto a ser inaugurado em 2015.

A promessa das próximas instalações, no entanto, não diminui o descontentamento da classe que, apesar de perceber algumas fragilidades, tem o ambiente, localizado na avenida Afonso Pena, como o guardião de um dos melhores palcos da cidade. “Um ponto muito positivo é que ele consegue atender de maneira muito adequada não só os grupos, mas também bailarinos que se apresentam em solos ou duos de dança. Sem o Klauss Vianna, Belo Horizonte perde muito, pois vão se reduzindo essas possibilidades de lugares que são bastante versáteis”, aponta Jacqueline de Castro, realizadora da mostra “1,2 na Dança”.

Para Carla Lobo, uma das idealizadoras do FID, ao lado de Adriana Banana, essa qualidade do teatro se soma ao desenho singular que possui, permitindo uma relação entre palco e plateia muito diferente de outras construções semelhantes encontradas aqui.

“O Klauss Vianna se tornou um excelente teatro para a dança em razão de sua própria arquitetura. O fato de o palco não ser tão alto, por exemplo, se adapta especialmente às montagens contemporâneas que têm muitos movimentos no chão. Se você não tem uma plateia posicionada em um ângulo adequado, o público pode perder o que os bailarinos estão fazendo. Nesse ponto, a visibilidade que o Klauss Vianna proporciona é muito boa”, diz Carla Lobo.

A atriz e diretora de teatro Rita Clemente, que estreou a peça “Doce Ismênia”, em 2011, naquele espaço, sublinha que a casa é sem dúvida uma das mais bem equipadas da capital. “Nós temos uma carência de teatros bem aparelhados aqui e ao longo dos anos, o Klauss Vianna, por meio de reformas, conseguiu ser um dos melhores teatros de Belo Horizonte. Ele, ao meu ver, é superior e mais interessante que vários outros que conheci fora do Estado. Quando soube da possibilidade de perder isso, então, eu fiquei decepcionada”, afirma Rita Clemente.

Sessões administrativas. Ao contrário de espetáculos, a partir de setembro, quando é previsto o encerramento da programação desenvolvida ali, o lugar, de acordo com a nota encaminhada pela assessoria de imprensa do TJMG, vai sediar “sessões administrativas e de julgamento, solenidades e outras ações inerentes às atribuições do Poder Judiciário que, hoje, são realizadas em espaços locados ou cedidos por outras instituições”. É questionado, porém, se essas atividades, de fato, deveriam implicar no fim do uso para o qual a edificação foi concebida.

“É inevitável a sensação de que em torno disso tudo há um grande desperdício de investimento e de dinheiro. Outro fato que chama atenção é a maneira como essa atitude reflete um tipo de tratamento que desconsidera a importância de um espaço como esse. A falta de trato, ao não escutar também a opinião dos artistas, mostra, mais uma vez como a cultura é tratada no nosso país”, observa Ione de Medeiros, diretora do grupo Oficcina Multimédia.

Madalena Fagundes, presidente do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de Minas Gerais (Sated/MG), frisa como essa decisão reflete a falta de entendimento do que significa a arte e o ofício do artista. “Um teatro para o artista pode ser comparado ao que representa um hospital para um médico ou um tribunal de justiça para um desembargador. Quando se decide fechar um espaço como esse, são ignoradas as relações de trabalho que envolvem a área artística”, diz Madalena.

O ator e integrante do grupo Espanca! Gustavo Bones compara ainda a postura do tribunal daqui com o do Rio de Janeiro, que mantém um centro cultural. “Lá eles tiveram a iniciativa de abrir uma programação cultural, o que para mim deixa claro que o problema é de falta de interesse da instituição daqui em dar prosseguimento a essas atividades”, afirma. De acordo com a assessoria de imprensa do TJMG, o órgão não tem uma fonte para falar sobre o assunto.

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