Quase um escambo literário

Feira promove oficinas de produção dramatúrgica e bate-papos com autores e editores do mercado independente

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Proximidade. Cecilia Arbolave, da editora Lote 42, acredita em relações mais próximas com os autores
MANUEL GUTIÉRREZ ARANA/DIVULGAÇÃO
Proximidade. Cecilia Arbolave, da editora Lote 42, acredita em relações mais próximas com os autores

Um mercado editorial paralelo se avulta e cresce com o desejo de mais e mais autores mostrarem seu trabalho e também com o surgimento de editoras menores que deem suporte e estabeleçam relações mais diretas – entre autores, editoras e leitores – que aquelas propostas pelas grandes editoras.  

Assim, a feira “Variedades Literárias”, que está sendo realizada em Belo Horizonte, vem comprovar a forte tendência da chegada de produções independentes ao mercado literário nacional. Com curadoria de Caio Otta, da Polvilho Publicações (outra editora independente de Belo Horizonte) neste sábado e domingo, no Galpão Cine Horto – com entrada franca, o público encontra publicações de várias partes do Brasil e seus autores. “Pensamos o projeto a partir de uma observação de um movimento que havia na cidade”, assinala Ana Alyce Ly, integrante do Variável 5, coletivo responsável pela organização da feira e que se dedica à produção cultural e plataformas de financiamento coletivo.

Mesmo com a possibilidade de vendas pela internet, feiras como essa são uma espécie de “tendência” no mercado de livros. “Existem os dois lados: da divulgação, reconhecimento e essa questão de vender os produtos. Mas também existe uma troca que não é relacionada ao dinheiro, no sentido de trocar com o público, com outros autores, com outras editoras”, avalia Ly.

“Acho que nunca se escreveu tanto como agora”, arrisca a argentina Cecília Arbolave, uma das integrantes da Lote 42, editora independente paulistana que em pouco mais de dois anos de vida acumula pequenos êxitos em um mercado que é dominado ainda pela qualidade das relações e publicações do que propriamente pelas vendagens “blockbuster”. “As pessoas escrevem o tempo todo, em seus celulares, trocam mensagens, publicam no Twitter…” analisa ela.

Depois do êxito de “Já Matei Por Menos”, “O Pintinho”, “Manual de Sobrevivência Para Tímidos”, “Seu Azul” e “O Pintinho 2”, a Lote 42 prepara o lançamento de “Indiscotíveis”, livro que traz 14 ensaios sobre álbuns clássicos da música brasileira. Músicos e jornalistas foram convidados a escrever sobre os discos sem poupar detalhes pessoais de seu envolvimento com a obra. Emicida, Kid Vinil, Pablo Miyazawa e Tatá Aeroplano são alguns dos nomes que assinam os capítulos. “Creio que a diferença de nossa editora é termos um contato mais direto com o autor e envolve-lo em quase todas as etapas da construção do livro. A gente usa nossa falta de estrutura (comparada com outras grandes editoras) como uma vantagem. Gosto de dizer que produzimos poucos e bons livros”, destaca Cecília.

Ela veio a Belo Horizonte para participar de uma mesa redonda promovida neste sábado pelo “Variedades Literárias”. Com o nome “Um Livro pra Chamar de Meu”, a mesa reuniu pessoas do mercado editorial independente para debater as várias possibilidades de publicação nesse “mundo paralelo”.

“Eu prefiro ser independente!”, vaticina João Perdigão, um dos responsáveis pelo zine “Zica”, que circula por Belo Horizonte e por feiras do Brasil desde 2010. Ele teve “O Rei da Roleta” publicado pela editora Casa da Palavra, em 2012. “Existe um contato direto com o público, uma proximidade, que somente o mercado independente proporciona. Acabamos conhecendo gente, descobrindo interesses em comum”, avalia ele.

“A Zica” é uma publicação anual feita a partir de recursos próprios angariados pelos editores e conta com a colaboração de vários parceiros. Com um tripé temático, a cada nova edição a revista se divide entre textos, quadrinhos e outras expressões artísticas. “Queríamos fazer um zine que não tivesse um tema só. Então, escolhemos sempre três temas ligados às ruas. Queríamos fugir da questão política panfletária. Não deixamos de ser artistas, para ser políticos. O zine não gera renda nenhuma, somente um circulação cultural mesmo. A gente vai fazendo trocas”, ressalta.

Realidade semelhante vive Cecília com a Lote 42, em São Paulo. “Começamos a editora com um poupança que o João (Varella) tinha e era a grana para fazer uma publicação e deu certo. A edição ‘se pagou’. Acho que o mercado ainda é mais tímido, mas a cada novo lançamento ficamos mais fortes. Os meus parceiros, Thiago (Blumenthal) e João, têm outros trabalhos e eu estou dedicada à Lote exclusivamente. Aos poucos, vai começando a dar certo”, ressalta a editora.

Programação

“Variedades Literárias” funciona neste domingo, das 14h às 18h, no Galpão Cine Horto (rua Pitangui, 3.613, Horto), com entrada gratuita. Às 14h30, acontece a mesa-redonda “Entre Zines, Livros e e-books – um bate-papo sobre suportes literários e o meio digital.

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