O coelho, o galo, a raposa e o macaco-prego

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Se curiosidade não chega a ser uma virtude, pelo menos ajudou a inventar o futebol na floresta amazônica
Intervenção sobre curiosa foto de macaco-prego curioso
Se curiosidade não chega a ser uma virtude, pelo menos ajudou a inventar o futebol na floresta amazônica

Era uma vez folgadíssimo macaco-prego, entretido a coçar carinhosamente o penduricalho. Como detestava interrupções, trepara nas grimpas de frondoso jacarandá-cabiúna. Lá de cima, vistoriava as redondezas: que não aparecesse alguma jaguatirica faminta. Ou mesmo um jaguaretê de olhos de ressaca. Ouviu barulho, leves gemidos de folhas caídas. Sem deixar de praticar a delicada e deliciosa operação, apurou os ouvidos. Aproximava-se aquilo que era, fosse o que fosse. Então viu o que se avizinhava, mesmo não acreditando no que via. LÁ DE CIMA Enquanto nosso folgazão via o que via, lá do alto também via o que via o macaco-prego belíssima ave da família dos falconídeos, vigoroso gavião-pega-macaco. Mas não era seu alvo aquilo que via o macaco-prego, senão o próprio, mesmo porque havia que honrar o nome da espécie. E assim, se aproximando, lá vinha a criatura alada na direção do distraído coçador. (Sim, coçador, já que caçador era o de cima.) Um tanto confuso o parágrafo? Não seja por isso. No alto, voando, o gavião-pega-macaco. No meio, coçando-se, o macaco-prego. Embaixo, pisando na folhagem seca, o que era visto por ambos os vigilantes. O QUE VIAM Aproximavam-se alegremente, abraçados e cantarolando o hino nacional das florestas tropicais amazônicas, três renomados viventes das matas: compadre coelho, compadre galo e comadre raposa. Porém o que espantou a dupla que vigiava foi a camaradagem dos três. Só se estivesse a raposa de barriguinha cheia. Senão, teria nos companheiros canta-cantantes delicioso e suculento almoço, a escolher. A CLAREIRA Mas a trinca nem chegou perto do jacarandá-cabiúna, preferindo parar na ampla clareira recém-descoberta, a 50 metros da imponente árvore. Parando, interromperam o hino e puseram-se a vistoriar os arredores. Sim, senhor! Que bela clareira, mui digna de excelentes práticas! MÃOS À OBRA No que pensaram, e decidindo sem discutir ou trocar palavras, botaram patas em ação. Usando o facão herdado do avô, passou o coelho a esfolar alguns galhos macios, obtendo seis esguios pedaços de pau. Procura que procura em volta, topou o galo com um coco, que se pôs a alisar, com ajuda do canivete herdado do avô, aparando arestas possíveis de causar ferimentos. Com destreza e rapidez, incumbiu-se a raposa de limpar de mato inconveniente a clareira, cortando raízes e aparando arbustos. Tudo isso com ajuda da foice herdada do avô. Como se vê, e por coincidência, o trio possuía antepassados dedicados ao trabalho braçal, já que se tornaram herdeiros de três instrumentos sofisticados e de alta serventia naqueles rincões. LENDAS E BOATOS Deve-se notar que o parágrafo acima destrói por completo os falsos argumentos sobre dois tipos de incapacidade de coelhos, galos e raposas. O primeiro, de que não possuíam, no passado, instrumentos sofisticados de trabalho. O segundo, de que não transmitiam por herança esses bens aos descendentes. É amplamente disseminado que, exceto alguns mamíferos superiores, todos os demais animais, bípedes ou quadrúpedes, seriam incapazes de manipular instrumentos perfuro-cortantes como os citados. Balela! Só não fica claro como aprenderam a usá-los, mas trata-se de simples detalhe e não nos interessa no momento. NAS ALTURAS Rodopia que rodopia, e desviando-se da galharia em volta, descia velozmente o gavião-pega-macaco em direção a seu objetivo, ou seja, a seu almoço e, sendo excessiva a caça, também a seu jantar. Isto é, na direção do macaco-prego. Apenas pensava com suas penas, imerso em pena e pesar: “Como é chato viver em floresta tropical, com tanto galho, ramo e folha atrapalhando. Quantos anos será que falta para os madeireiros botarem abaixo este inferno verde? Se toda esta vastidão se tornasse uma imensa clareira tropical, que maravilha viver!”. Só esquecia, bobo que era, que sem floresta não haveria macaco-prego. Talvez nem mesmo prego. Enquanto isso, e despreocupado de almoços e jantares, continuava nosso macaco-prego a praticar o que praticava, com bonomia e prazer. NA CLAREIRA Sentaram-se para descansar os três amigos. Tinham conseguido seis pedaços de pau de bom tamanho, um coco grande e, quanto à clareira, estava completamente livre de tocos, raízes superficiais e arbustos. Belo trabalho! A essa altura, tanto o macaco-prego quanto o gavião-pega-macaco estavam mais interessados no que faziam os pedestres do que em coçar ou comer. Pousou o gavião num galho do jacarandá-cabiúna, bem próximo de seu ex-almoço. Curioso, perguntou ao macaco: – Que será que estão tramando essas criaturas? – Sei lá – respondeu o símio. – O que sei é que nunca vi coelho, galo e raposa em tanta camaradagem. Até parece não serem inimigos desde que o mundo é mundo. – Começo a imaginar que vão fazer um churrasco – disse o gavião. – Até pode ser – aventurou-se o macaco. – Mas só se for churrasco de coco, a única coisa comestível que conseguiram. Mas raposa come coco? – Acho que não – disse o gavião. – Só se a fome for demais. Ainda assim... – Que tal perguntar pra eles? – Boa ideia. Vamos lá. – E então desceram. Já era quase meio time.

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