Romance não ficcional revê tragédia vivida por escritor

Francisco Goldman escreveu livro sobre a perda da mulher, morta por uma onda no México

iG Minas Gerais |

Autor. Natural de Boston, Francisco Goldman perdeu a esposa, estudante de letras, durante férias
Mathieu Bourgois/divulgação
Autor. Natural de Boston, Francisco Goldman perdeu a esposa, estudante de letras, durante férias

SÃO PAULO. Nos anos 80, o escritor Francisco Goldman cobriu as guerras da América Central para as revistas norte-americanas “Harper’s” e “New Yorker”. Nascido em Boston, mas de mãe guatemalteca, Goldman, 60, sabia que estava tratando do que era chamado de “o quintal” dos Estados Unidos. Mas, por conta de sua origem, sua cobertura era mais sensível aos elementos locais, enriquecendo seu relato.

A partir daí, suas ficção e não ficção continuaram transitando entre culturas e idiomas que unem os EUA ao México e à América do Norte. Até que uma tragédia pessoal selasse de vez sua relação entre essas duas pontas. O ano era 2007, e Goldman estava apaixonado pela mulher com quem se casara, mexicana estudante de letras hispânicas em Nova York. Numa viagem de férias numa praia da costa pacífica do México, enquanto brincava de pular ondas numa parte aparentemente tranquila, Aura Estrada, de apenas 30 anos, foi tragada por uma onda violenta e inesperada. Fraturou vértebras e a coluna e ficou ali sem poder respirar. Goldman tentou reavivá-la, mas Aura morreria algumas horas depois.

“Voltei ao Brooklyn (Nova York) e passava os dias bêbado, caminhando pelas ruas, enrolado nos cachecóis de Aura, passava por onde ela frequentava aulas de ioga, o café em que escrevia”, conta Goldman à reportagem. Em seu apartamento, havia erigido com amigas um altar com seus objetos, destacando o vestido do casamento.

O luto parecia não acabar mais, até que reagiu com a ideia de colocar tudo no papel. “Não foi terapêutico, eu estava no fundo do poço o tempo todo. Mas me tomou por completo, eu só pensava em me lembrar de tudo o que havia acontecido até o dia em que ela morreu.”

Assim nasceu “Diga o Nome Dela”, que o autor reforça ser um “romance”, apesar de não se tratar de uma obra ficcional. “Tudo vem da minha memória, só usei instrumentos jornalísticos em algumas passagens”, explica. Entre elas está a que reconstrói o acidente. Segundo sua investigação, a misteriosa e fatal onda que matou Aura só surge em condições específicas e de forma bastante ocasional.

O livro, publicado originalmente em 2011, foi um êxito de vendas nos EUA e no México, e agora chega em tradução brasileira pela Companhia das Letras.

Goldman enfrentou acusações. A mãe de Aura, Juanita, o culpou pelo acidente. Ao mesmo tempo, espalhou-se uma versão de que Goldman estaria sendo perseguido pela polícia mexicana, também para responder pela morte da mulher. “Isso é tudo uma construção”, afirma.

Depois que o livro foi publicado, Goldman voltou a dar aulas universitárias e a dividir seu tempo entre Nova York e o México, onde ainda mantém vínculos com as amigas da mulher. Criou o Aura Estrada Prize, um concurso para jovens escritoras bilíngues (espanhol e inglês).

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O quê. “Diga o Nome Dela”, de Francisco Goldman, ed. Cia. das Letras, 440 págs., R$ 49,50

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