Mãe e madrinha foram as grandes incentivadoras

iG Minas Gerais | Randal C. Archibold |

Pinturs de Dodard, artista que afirma ter influência de Picasso
IAN WILLMS
Pinturs de Dodard, artista que afirma ter influência de Picasso

Porto Príncipe, Haiti. Quando o presidente do Haiti,Michel Martelly, convidou o artista plástico Philippe Dodard para a direção da escola de arte pública do Haiti, conhecida como Enarts, ele aproveitou a oportunidade, mas reconstruir o local tem sido complicado. Ele já passou por quatro ministros da Cultura e nunca tem certeza do seu orçamento.

Entretanto, disse ficar emocionado com os cerca de 300 estudantes. Com algumas exceções, são filhos de camelôs, artesãos e desempregados que lutam para conseguir pagar os US$ 100 de anuidade.

Um aspirante a escultor, Woklo Caymitte Woodly, trabalhou o ano inteiro num busto da mãe. Presenteou-a com o trabalho como agradecimento por ter-lhe enviado à escola.

“Como não se emocionar com isso?”, questionou Dodard.

A mãe de Dodard teve um papel decisivo em sua formação como artista.

O pai era contador e a mãe, secretária e também artista, que, em conjunto com a madrinha, professora de desenho, incentivou Dodard, um dos oito filhos, a correr atrás de sua curiosidade.

A maior parte de sua formação profissional se deu no começo da década de 1970 na Escola de Arte Poto-Mitan, com mestres como Patrick Vilaire e o artista conhecido como Tiga, que viajara pela África e voltara com a determinação de disseminar a cultura e a arte do continente africano.

“Culturas diferentes se encontraram aqui e criaram nossa identidade”, disse Dodard. “A arte é um jeito muito bom de comunicar. Música, dança, desenho e pintura são muito naturais”.

Ele cita Pablo Picasso entre suas influências e observa que os dois se inspiraram em máscaras africanas. A diferença é que Dodard, com antepassados africanos, afirma ter uma conexão mais próxima e homenageou essa herança em obras como “In Memoriam”, escultura abstrata de metal dedicada ao sacrifício dos escravos no Haiti.

“Muita gente identifica influência de Picasso nesse trabalho”, ele disse, enquanto segurava uma fotografia da peça. “Onde Picasso se inspirou? Na África”.

Projeção. Quando Dodard começava a ganhar projeção internacional, suas charges políticas chamaram a atenção do cineasta norte- americano Jonathan Demme, que disse ter se apaixonado pela arte haitiana durante viagem ao país em meados da década de 1980 e se sentiu particularmente atingido pela “literatura visual” das pinturas de Dodard.

Demme apresentou Dodard em dois documentários, “Haiti: Sonhos de Democracia” e “O Agrônomo”, dando exposição mais ampla ao artista.

“Conforme os anos passaram, as charges apresentadas no documentário se tornaram mais visionárias, numa previsão comovente do difícil caminho para a democracia”, disse Demme.

Se Dodard lamenta alguma coisa é o fato de que a agenda lotada de compromissos escolares, exposições e arrecadação de fundos tenha reduzido seu tempo no estúdio.

O estúdio é um lugar tranquilo numa casa ampla, onde ele procura o ritmo da obra e da vida em si. Dodard pratica ioga e reiki, técnica japonesa de relaxamento, podendo parecer um professor enquanto fala sobre si mesmo.

“Eu preciso ouvir as vozes”, fazendo uma pausa da pintura e respirando fundo. “Eu preciso sentir a pulsação. É uma maneira de estar em contato comigo mesmo e com o universo”.

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