O Pablo Picasso do Haiti

Pinturas de Philippe Dodard são vendidas por milhares de dólares e já foram expostas em Paris e Nova York

iG Minas Gerais |

“Deve haver um motivo”. Philippe Dodard foi salvo duas vezes durante o terremoto que desolou o Haiti quatro anos atrás
IAN WILLMS
“Deve haver um motivo”. Philippe Dodard foi salvo duas vezes durante o terremoto que desolou o Haiti quatro anos atrás

PORTO PRÍNCIPE, Haiti. Philippe Dodard, muitas vezes chamado de Picasso do Haiti, procurava vibrações. Isso poderia parecer agourento num país tão devastado pelo terremoto de quatro anos atrás. Dodard diz ter tido sorte de sobreviver àquele dia. Ele saiu de uma reunião no Palácio Nacional pouco antes de este ser destruído e de seu carro fugir pela rua quando o chão começou a tremer e balançar.

“Fui salvo duas vezes. Acho que deve haver um motivo”, disse.

Porém, em seu estúdio no alto de um morro na capital, Dodard, 59, falava em metáforas, a vibração vinha não da terra, mas da “batucada silenciosa comunicando a energia da vida”. Seus ancestrais africanos usavam tambores, mas seu instrumento é um pincel.

“A vibração que procuro é da cor”, ele falava, enquanto retocava os azuis, pretos e laranjas enferrujados de uma deusa marinha abstrata emergindo das águas revoltas. “Uma cor tem a vibração de outra cor. Parece magia”.

Poucas semanas depois, a obra seria exposta num dos museus mais famosos do sul da Flórida, aumentando a aclamação de um artista cujas pinturas são vendidas por milhares de dólares e foram expostas em Paris, Nova York e Los Angeles e que, entre outros, tem como fãs a estilista Donna Karan e o cineasta Jonathan Demme.

Suas obras – não apenas pinturas, mas também esculturas de ferro, joias e fotografia – exploram a rica tradição artística do Haiti. Existe um anseio pela expressão nascida da beleza natural do país e das provações causadas pela escravidão, pelos desastres naturais e anos de tumulto político.

Condizente com a mistura racial e a cultura haitiana, seu estilo mescla influências das máscaras africanas, da religião vodu e dos mestres europeus.

“Philippe respeita a tradição, principalmente na maneira pela qual o mundo espiritual se infiltra na vida cotidiana”, disse Carol Damian, especialista em arte haitiana e diretora do museu Frost Art da Universidade Internacional da Flórida, em Miami, que exibe obras de Dodard até 29 de junho. “Porém, ele deseja exprimir essa espiritualidade de um jeito mais moderno. Ele vai além da tradição da arte ‘naïf’ – quantas pinturas de palmeiras podem existir por aí? –, mas ele a respeita”.

Agora, Dodard está trabalhando em uma de suas obras mais desafiadoras, buscando espalhar a influência como diretor da escola de arte pública do Haiti, conhecida pelo acrônimo francês, Enarts.

Num aglomerado de salas de aula e estúdios sombrios num bairro central sofrido, a escola foi negligenciada nos últimos anos, situação piorada pelo terremoto de janeiro de 2010.

“Fiquei chocado. Foi um desastre completo”, ele disse. “Parecia uma casa do Frankenstein”.

Ele pegou estátuas descartadas da forja quebrada e convidou mais profissionais a lecionar. Dodard planeja uma campanha para arrecadar fundos, esperando tirar proveito do círculo crescente de figuras de projeção internacional de quem ficou amigo.

Ele contou ter aceitado a direção da escola a pedido do presidente Michel Martelly, amigo seu, pela sensação de dever e por buscar uma retribuição.

Muitos artistas foram mortos no desastre, e suas obras foram danificadas ou destruídas. Dodard foi poupado do pior.

Para se curar emocionalmente, produziu uma vívida obra em preto e branco que reflete o caos e os gritos na noite escura.

Ele também ensinou arte para crianças que haviam perdido suas casas, usando ônibus escolares doados pela República Dominicana como salas de aula.

Porém, queria mais.

Donna Karan, que lançou sua coleção primavera de 2012 inspirada em Dodard, diz que ele transformou o ensino em prioridade.

“Usar as pinceladas audazes de Philippe como inspiração foi natural”, disse Karan. “Sua obra captura a arte e a alma, ligando passado, presente e futuro com uma sofisticação poderosa”.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave