Festas cobram entrada de brasileiros enquanto gringos entram de graça

Apesar de constar no Código de Defesa do Consumidor que os consumidores devem ser tratados da mesma forma, a prática é aceita pelo mercado e segue os mesmos moldes dos eventos onde mulheres pagam menos para entrar

iG Minas Gerais | JULIANA BAETA |

Na Dablio, as cobranças diferenciadas continuarão até o fim da Copa do Mundo
Reprodução/ Facebook
Na Dablio, as cobranças diferenciadas continuarão até o fim da Copa do Mundo

Em Belo Horizonte, algumas boates estão organizando festas nas quais os turistas estrangeiros têm entrada liberada e os brasileiros têm que pagar valores entre R$ 20,00 e R$ 30,00. A prática, apesar de constar no Código de Defesa do Consumidor como proibida, é aceita no mercado e divide opiniões.

Na D´Duck, localizada na Savassi, região Centro-Sul da capital, uma festa realizada na última quarta-feira (18), véspera de feriado, foi anunciada no evento marcado pelo Facebook e deixou clara, na discrição, a diferenciação: “Aproveitando o climão de Copa, vamos fazer um welcome gringo nessa quarta para as espertas descolarem aquele GRINGOcard na pista. Até 00:30 a entrada é VIP e os gringos entram OFF durante toda a noite pois como diria Candy Mel Baby, "uh, esse loiro que eu quero (na cama, na cama, na cama)”.

Para os brasileiros, o preço cobrado foi de R$ 20,00 com consumação até as 0h30. Depois de 1h, o valor é “sob consulta”. A assessoria da casa negou a preferência, e informou que os preços cobrados valem tanto para estrangeiros como brasileiros.

Na Dablio, casa noturna localizada no bairro Funcionários, também na região Centro-Sul da cidade, a situação é a mesma. Na quarta-feira (18), a festa “Dance Machine” liberou a entrada dos gringos, e cobrou o valor de no mínimo R$ 25,00 como entrada para os brasileiros. No evento marcado pelo Facebook, a descrição também é explícita: “FREE! Gringos não pagam entrada! Basta apresentar passaporte estrangeiro na entrada da casa.”

A assessoria da casa confirmou a prática e disse que durante todo o período da Copa do Mundo será assim. Ela esclareceu que como a cidade está tomada por estrangeiros, a ideia partiu dos promoters para encher a casa.

Para o estudante Mateus Meireles, 24, isso não é um problema.  “Eu tive o mesmo benefício na Espanha quando morava lá. Eu entrava de graça nas balada porque era intercambista, é uma prática comum ali. A entrada para o turista estrangeiro é uma forma de fazer com que uma pessoa que já tem dificuldade com a língua e não conhece o país se sinta à vontade em ir a estes lugares. Eu acho muito pior, por exemplo, a diferenciação no preço da entrada para homens e mulheres. É sexista, parece que além da entrada, você vende a presença das mulheres para os homens”, disse.

Já o funcionário público Arayan Pereira, 26, se recusou a ir em uma dessas festas justamente pela cobrança “seletiva”. “A constituição prega pelo princípio da igualdade, e a desigualdade, mesmo nas relações entre particulares, tem que ser justificada. Qual é a razão de não cobrar do estrangeiro e cobrar do brasileiro? Acho que na cabeça dos promoters deve ser chique ter estrangeiros nas festas, mas chique é nos valorizar. Não concordo com isso da mesma forma que não concordo que se deve cobrar mais caro dos gringos. Fui convidado para uma dessas festas, mas acabei indo em outra que não fazia isso, porque não adianta ser contra algo e não tomar uma atitude. E o consumidor, ao deixar de consumir algo  por não concordar com a política de tal empresa, possui uma arma  poderosa”, comentou.

A vice-presidente da Comissão de Direito do Consumidor da Ordem dos Advogados do Brasil em  Minas Gerais (OAB-MG), Ana Carolina Caram, explica que, no Código de Defesa do Consumidor, a prática da diferenciação de preços, como entre homem e mulher, é condenada. “No entanto, essa é uma prática aceita pelo mercado. É uma opção do consumidor entrar ou não entrar em determinado estabelecimento, mas ele não é, por exemplo, obrigado a consumir algo para estar ali, outra prática proibida, e muitos estabelecimentos também fazem isso”, explicou.

Ainda segundo ela, entrar com uma ação na Justiça por causa de uma entrada no valor de R$ 20,00, é burocrático e, muitas vezes, sem retorno. No entanto, os consumidores que se sentirem lesados com a prática podem acionar o Ministério Público em uma ação coletiva, ou mesmo, o Procon.  

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