Bate debate 20/6/2014

iG Minas Gerais |

Deus estava lá   Felipe Pedrosa Jornalista   Manoel, mais um que tem Silva no nome, levanta todos os dias às quatro e meia da manhã. Ele corre: corre para levantar, corre para tomar café, corre para pegar o ônibus e corre para chegar ao trabalho. Carregador de caixas no Ceasa, o chamado chapa, recebe por carga descarregada. Por isso, corre para fazer o maior número de serviços no dia e, ao ver o sol se pôr, ter o suficiente para o pão, o café e o transporte público da próxima manhã.   Manoel, mais um trabalhador sem carteira assinada e todos aqueles "direitos" que estão na constituição, gosta da correria de segunda a sexta-feira para que, ao chegar o fim de semana, possa aproveitar mais a vida.    Futebol, cachaça, cigarro, mulher, filhos... Ele sempre conta, durante o almoço de domingo, sobre como foram os dias trabalhados. Fala sobre os pombos que infestam os galpões do Ceasa e, numa simples lei de sobrevivência, disputam restos e mais restos, relata sobre os colegas de profissão que, às vezes, estão fazendo o uso de drogas pesadas e até esboça bons adjetivos sobre o empresário que, apesar de querer lucros e mais lucros, sempre o agrada com alguns trocados a mais.   Manoel, mais um cidadão que casou-se, teve filhos e constituiu família, gosta de filosofar. Ele, após tomar duas, três doses da marvada, esbraveja para quem quiser ouvir: "cada caixa que carrego no Ceasa é como um fardo da minha vida" e, quando está mais romântico, ainda revela: "ao tirar as caixas das minhas costas, lembro-me dos amores que se foram".  Alguns batem palmas, mas, a maioria dos presentes, dá risada. Afinal, onde que Manoel teve amores?   Manoel, mais um Silva, trabalhador e de família feita, levantou-se tarde neste sábado. Estava cansado da função ou, quem sabe, dos tantos amores que descarregou ao longo da vida. Não foi capaz de dar um bom dia efusivo, de ajudar a mulher com os afazeres de casa, de abraçar o filho mais novo, de viver isso ou aquilo.    Ele foi para o bar e, ao contrário do que sempre faz, bebeu calado. Duas, três, quatro... as doses de cachaça mantiveram Manoel acordado, atordoado, atormentado. Alguns olhavam para ele, mas, a maioria dos presentes, nem se quer viram que o carregador de caixas estava ali.    Manoel, embriagado e ansioso com tanta coisa, viu o fim de semana se despedir. E, enquanto caminhava para casa, entre um e outro tropeço, reparou que a lua, tão cheia nas noites anteriores, estava se esvaziando.    Ela se despedia dele assim como as caixa do Ceasa. Manoel, apesar do nome abençoado, pensou que Deus não estava com ele. E, ao encostar a cabeça no travesseiro, só queria voltar a correria de segunda a sexta-feira para esquecer o fim de semana.

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