Quem envergonhou o Brasil com o ataque à presidente Dilma

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DUKE
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Pertence à cultura popular do futebol a vaia a jogadores, a juízes e eventualmente a alguma autoridade. Insultos e xingamentos com linguagem de baixo calão que nem sequer crianças podem ouvir é coisa inaudita no futebol do Brasil e foram dirigidos à mais alta autoridade do país, a presidente Dilma Rousseff. Esses insultos vergonhosos só poderiam vir de um tipo de gente que ainda tem visibilidade no país, “gente branquíssima e de classe A, com falta de educação e sexista”, como comentou a socióloga do Centro Feminista de Estudos, Ana Thurler. Quem conhece um pouco a história do Brasil sabe logo identificar tais grupos. São setores de nossa elite, dos mais conservadores do mundo e retardatários no processo civilizatório mundial que, por 500 anos, ocuparam o espaço do Estado e dele se beneficiaram até não mais poder. Esses grupos não conseguiram ainda se livrar da Casa Grande que têm entranhada na cabeça e nunca se esqueceram do pelourinho. Não apenas a boca é suja, mas a mente também. Na linguagem dura de nosso maior historiador mulato, Capistrano de Abreu, grande parte da elite sempre “capou e recapou, sangrou e ressangrou” o povo brasileiro. E continua fazendo isso. Sem qualquer senso de limite e, por isso, arrogante, pensa que pode dizer os palavrões que quiser e desrespeitar qualquer autoridade. O que ocorreu revelou aos demais brasileiros e ao mundo que tipo de lideranças temos ainda no Brasil. Envergonharam-nos aqui e lá fora. Ignorante, sem educação e descarado não é o povo, como costumam pensar, mas o grupo que pensa e diz isso do povo. São setores em sua grande maioria rentistas que vivem da especulação financeira e mantêm milhões de dólares fora do país, em bancos estrangeiros ou paraísos fiscais. Bem disse a presidente Dilma: “o povo não reage assim; é civilizado e extremamente generoso e educado”. Ele pode vaiar, e muito. Mas não insulta com linguagem chula e machista a uma mulher. Com serenidade e senso de soberania pessoal, ela deu a esses incivilizados uma resposta de cunho pessoal: “Suportei agressões físicas quase insuportáveis e nada me tirou do rumo”. Referia-se às torturas sofridas dos agentes do Estado de terror que se havia instalado no Brasil a partir de 1968. O pronunciamento que fez, posteriormente, na TV, mostrou que nada a tira do rumo nem a abala, porque vive de outros valores e pretende estar à altura da grandeza de nosso país. Esse fato vergonhoso recebeu a repulsa da maioria dos analistas e dos que saíram a público para se manifestar. Lamentável, entretanto, foi a reação dos dois candidatos a substituí-la no cargo de presidente. Praticamente, usaram as mesmas expressões, na linha dos grupos embrutecidos: “Ela colhe o que plantou”. Só espíritos tacanhos e faltos de senso de dignidade podiam reagir dessa forma. E eles se apresentam como aqueles que querem definir os destinos do país. Estamos fartos de lideranças medíocres que tais quais galinhas continuam ciscando o chão, incapazes de erguer o voo alto das águias que merecemos. Um amigo de Munique, perplexo com os insultos, comentou: “Nem no tempo do nazismo se insultavam dessa forma as autoridades”. É que ele talvez não saiba de que pré-história nós viemos, que tipo de setores elitistas ainda dominam e de que forma prepotente se mostram e se fazem ouvir. São eles os principais agentes que nos mantêm no subdesenvolvimento social, cultural e ético. Fazem-nos passar uma vergonha que, realmente, não merecemos.

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