Nada mais sintomático que a rabugice

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Todos os dias, o corpinho dá sinais da velhice em pílulas. É um cabelo branco ali, uma fenda aqui, um deslizamento acolá. Mas nada mais sintomático que a rabugice. No passado distante em que se encontra a adolescência, cheguei a acreditar que, de perto, todo mundo era realmente gente boa. Não precisaram muitos aniversários para eu começar a criar intolerância a certas pessoas. A idade só fez agravar os sintomas e crescer a lista de tipos difíceis de suportar, que exibo a seguir:  

O efusivo: todo encontro é uma festa, cada história vem acompanhada de um “uhu”, a vida parece ser uma eterna aula de spinning. Definitivamente, não consigo confiar em gente que está sempre feliz e animada; pior, que sempre quer te deixar feliz e animada, do tipo que te obriga a interagir ou dançar quando tudo que você mais queria é ser esquecido no sofá.

O simpático: não é tão óbvio quanto o efusivo, mas foi fabricado com um sorriso pregado no rosto. Não importa o clima à sua volta, ele tem sempre uma piadinha para levantar o ambiente. Em cinco minutos, você ganha um apelido fofo e vira amigo de infância. Vai pensar em desabafar e ganha de brinde uma frase feita cheia de otimismo. Sem se dar conta, você é engolido pela bolha de intimidade, com carinhos e beijinhos sem ter fim.   O carente: para mostrar que meu problema não é com gente feliz, entra fácil para a lista o adestrador de “mimimi”. Um e-mail não respondido, um almoço com o outro amigo, o fim de semana off-line viram um drama. O hobby favorito é discutir a relação e jogar na sua cara que você nunca faz o suficiente. Pra ele, amigo bom é o que concorda com tudo, o que o defende em qualquer situação e, de quebra, diz que ele é lindo, sempre.  

O competitivo: você está contando sobre como as reações à vacina da gripe suína te derrubaram por dois dias e lá vem o sujeito dizer que a dor de cabeça que teve na semana passada foi muito pior. Você ficou arrasada com o fim do namoro, ele tentou se matar; nunca ganhou o presente que pedia no Natal, ele passou fome; faz horas extras demais e ganha mal, o emprego dele é praticamente trabalho escravo. Não adianta dizer o quanto você está triste, ele sempre passou por coisas piores. É viciado em gincanas de desgraças.

O vendedor: bobagem começar a discutir. Você está do lado errado e precisa ser convertido. Nem estou falando do fanático religioso, apesar de pessoas desse tipo usarem a mesma técnica. Sendo assim, não há paraíso se você não parar de comer carne, não começar a correr 12 km por dia, não votar naquele partido ou continuar tomando remedinhos cheios de química para tratar suas doenças. Tem também os que encaram como missão convencer a humanidade de que a escola do filho é a melhor, a última viagem de férias é obrigatória ou que é impossível viver sem ter um carro da tal montadora. Como diz meu amigo Jack, essas pessoas só podem ser comissionadas.  O preconceituoso: esqueça o espalhafatoso, que posta piada de gay no Twitter ou credita todo problema de trânsito a uma mulher no volante. Estou falando de gente mais sutil, que trata mal o empregado do prédio para mostrar quem manda e entende o carinho entre dois homens como uma agressão pessoal. Que faz da vizinha sua matéria-prima para as fofocas diárias por ela ser divorciada ou se sente ameaçado em uma festa cuja a maioria dos convidados é negra. E, desta vez, os exemplos não são ilustrativos.  Tenho tanto horror a preconceito, que minha batalha diária é acabar com os meus, que fiz o favor de listar aí em cima. Meu prazo é antes que a rabugice se instale de vez.

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