A Maria brasileira

iG Minas Gerais |

Ricardo Corrêa/Webrepórter
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Aos 54 anos, a moradora de Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte, nunca tinha visto o Mineirão de perto. Encantou-se no primeiro encontro. Mesmo estando só do lado de fora. Brilho nos olhos de quem acredita que o Brasil pode, sim, estar em festa para receber o futebol. Mais que isso: é o dono da bola. Convicção de uma lutadora que ainda não desistiu do seu país.  O nome dela é Maria Sueli. Nunca apertei sua mão ou lhe dei um abraço, mas gostaria imensamente de fazer isso. Já a admiro. A conheci através do olhar do jornalista e amigo Ricardo Corrêa. Não fosse por ele, talvez nunca tivesse ouvido falar dessa mulher. Os dois se encontraram na semana passada, enquanto ele cobria o primeiro jogo da Copa do Mundo em Belo Horizonte.  Com um câmera nas mãos, um repórter que procura histórias curiosas deparou-se com a catadora de material reciclável. Leve e feliz, estava ela ali, trabalhando, na orla da lagoa da Pampulha quando parou para responder às perguntas de Ricardo. O que ele não imaginava é que, mais que uma personagem para a matéria, encontraria um grande exemplo de cidadania em tempos onde o “politicamente correto” é criticar.  E foi assim, em um vídeo de dois minutos e 32 segundos, que a Maria Sueli ganhou o meu respeito. O meu e de tantas outras pessoas que agora a conhecem pela internet e compartilham. Não é para menos. São argumentos simples e extremamente dignos. “Depois da Copa na África, eu fiquei pensando: que dia o brasileiro vai ver que é capaz de fazer uma festa muito maior? O futebol já acontece todos os dias nos nossos gramados. Os meninos já nascem com a bola nos pés. Mesmo sendo pobre, a gente tem condição de fazer. Os problemas são muitos, mas não estão só aqui. Somos até ricos em comparação com a África”, analisou com propriedade. Para essa catadora de material reciclável, o país tem muitas dificuldades, a maioria delas, inclusive, Maria Sueli conhece bem de perto. Ainda assim, não desanima:  “Temos muitos problemas, mas eles não podem ser a justificativa para a desordem, para a bagunça. É só mais uma questão de educação. Não quero saber se a pessoa está na faculdade, não quero saber se a pessoa está na escola ou se cobriu a cara para estragar patrimônio e cuspir no chão... Se fez isso, é porque não tem educação”. A Maria Sueli sente orgulho de ser uma catadora de material reciclável. Na conversa com Ricardo, mostrou alegria por estar trabalhando durante uma Copa em seu país. E, principalmente, de poder participar de todo o processo como cidadã. “O certo é abrir a porta e receber nossos visitantes muito bem. Quando a gente não mostra educação, não quer dizer que a educação do país anda ruim, quer dizer que há problema na criação”.  Dias depois, Ricardo reencontrou a dona dessa história. Conheceu melhor o trabalho dela, a associação que preside em Vespasiano e os colegas de profissão. Descobriu que foram parar na Pampulha, porque, pela primeira vez, a Prefeitura de Belo Horizonte trocou o convênio com uma empresa terceirizada pelo contrato direto com redes formadas por cooperativas de catadores. O rendimento deles vai melhorar. Pelo menos na Copa.  Eu me sinto melhor diante de gente como a Maria Sueli. Ela renova minha esperança em relação aos brasileiros. Me alegra saber que há aqueles que ainda acreditam no exercício da cidadania e na força do seu trabalho. Gente disposta a lutar pelo coletivo. Defensores de que a corrupção pode ser combatida através da educação. E que educação não se produz só na escola, em teorias, tem sua base no caráter. Sueli é Maria. Mulher, negra, trabalhadora, líder. Está feliz. Sua voz agora ecoa e vai virar documentário. Obrigada, Ricardo.

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