A gula entra em campo

A convite do Gastrô, chefs recriam pratos típicos da Argentina, Irã, Costa Rica e Inglaterra, próximas seleções a desembarcar em Belo Horizonte para jogar pela Copa

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

A aromática geleia de rosas é um dos destaques do prato iraniano de Beto Haddad, o kabab
Mariela Guimarães
A aromática geleia de rosas é um dos destaques do prato iraniano de Beto Haddad, o kabab

Em sequência à série que visita culturas gastronômicas de países cujas seleções vêm a Belo Horizonte para participar da primeira fase da Copa do Mundo, o Gastrô traz hoje os últimos desafios culinários.

As próximas seleções a desembarcar em Minas são Argentina e Irã, que se enfrentam amanhã no Mineirão, e Costa Rica e Inglaterra, que jogam na próxima terça-feira.

Para representar esses países, chefs locais montaram receitas de petiscos inspirados nas culturas de cada seleção. A ideia é convidar a família ou amigos e remontar a disputa também fora de campo: qual petisco ganha o jogo?

Para Patrícia Cavalcanti, do restaurante Santafé, a gastronomia é uma porta de entrada para conhecer e se aprofundar em outras culturas. “Por meio da comida, a gente consegue chegar próximo da alma de cada povo. Aquela frase ‘você é o que come’ faz muito sentido, também no plano cultural”, avalia.

Argentina x Irã. Convidado para representar o jogo entre nossos eternos rivais argentinos e os jogadores iranianos, o chef Beto Haddad diz não ter encontrado muita dificuldade para pensar no cardápio – ele conhece muito bem a Argentina e, por ser de família árabe, tem boa desenvoltura na cozinha influenciada por essa cultura.

Dos hermanos, ele trouxe uma receita celebrada na Argentina como prato nacional, mas que na verdade é bem disseminada em todos os países cortados pela Cordilheira dos Andes, as empanadas. Diferentemente da opção do chef Carlos Bruno, que apresentou os pasteizinhos assados na semana passada com forte acento andino representando a Colômbia e seus ajís, Haddad nos apresenta a empanada criolla, menos apimentada e mais palatável ao gosto brasileiro.

“As empanadas são mania na Argentina e a preferência nacional é a criolla, uma comida do dia a dia. Por todo o país, onde você vai, tropeça em uma loja de empanada e geralmente elas estão lotadas”, comenta Haddad. Para ele, o brasileiro já está bastante habituado à culinária argentina. “É mais caro viajar pelo Brasil do que ir até lá”, completa.

O chef divide o país em pelo menos quatro regiões gastronômicas: a capital portenha e seu entorno (cozinha internacional e parrilla), a região de Mendoza (carnes de caça, como jacaré, capivara e lhama), a Patagônia (carnes grelhadas com chimichurri mais apimentado e surpresas, como baleias e pinguins) e o litoral (frutos do mar).

“Além de terem as carnes de qualidade indiscutível, os argentinos aproveitam muito mais dos animais do que os brasileiros. Por lá, é muito mais comum encontrar miúdos nos cardápios. Eles comem coração, rins, estômago, até o cérebro”, diz Haddad.

Já os aromas típicos da culinária árabe influenciam muito o prato iraniano, mas, segundo Haddad, a gastronomia local tem suas particularidades bem marcadas em relação aos outros países. “É uma comida muito mais delicada, com sabores adocicados e muitos aromas de frutas e flores, como rosas e de laranjeira, com menos presença da pimenta. O suco da romã, por exemplo, é fundamental em quase todos os pratos”, diz.

País muçulmano, por lá valem as restrições alimentares presentes no Alcorão, como a proibição da carne de porco. As mais comuns são o frango e o cordeiro. Para o desafio, Haddad buscou um prato muito difundido no país, o kabab (também traduzido do persa como kebap or kebab), um tipo de almôndega, que ele preparou com carneiro, mas que pode ser também de carne bovina ou frango.

Fazendo toda a diferença no prato, ele dá uma dica que também serve de acompanhamento para comidas brasileiras: geleia de rosas, que pode ser encontrada em empórios árabes e também no Mercado Central. “Sozinha, na torrada, ela já faz sucesso. Aconselho servir com quaisquer carnes grelhadas. É um produto maravilhoso”, afirma o chef.

Costa Rica x Inglaterra. Como nunca foi à Costa Rica, a chef Patrícia Cavalcanti teve de estudar o país ao receber o desafio. Gostou do que descobriu, segundo conta. No país caribenho, além de frutos do mar à beira de praias paradisíacas, se come um prato bastante familiar para o brasileiro: arroz com feijão, com um acompanhamento também muito apreciado por aqui, a banana.

Assim, para o Gastrô, ela pensou em um petisco típico de botequins brasileiros, mas servido com acompanhamentos inusuais, que dão até um visual mais sofisticado ao prato – caldinho de feijão apimentado e tartar de banana.

“Fiquei surpresa de descobrir essas semelhanças dos costa-riquenhos conosco. É um país tão próximo, mas que poucos conhecem. Procurar saber mais sobre o que cada um come é um exercício muito bom, amplia a bagagem cultural”, diz ela.

De Londres, cidade que ela já visitou e onde uma das filhas morou por um tempo, ela não trouxe tão boas lembranças gastronômicas. “Achei estranhíssimo embrulharem comida em jornal, por exemplo, mas lá isso é supercomum. Mundialmente, existe um senso de que não se come muito bem na Inglaterra, e não discordo. O Jaime Oliver conseguiu meio que abrandar esse estigma, mas nem tanto. Gostei mesmo foi da animação dos pubs”, afirma a chef.

Dos bares típicos, ela trouxe o fish and chips, uma unanimidade inglesa. “É um prato que não tem muito como errar. Peixe empanado frito e batata frita, simples e direto, como gostam os ingleses”.

Aproximando o prato típico dos costumes brasileiros, ela trocou a batata inglesa pela baroa e, na maionese, acrescentou açúcar mascavo, azeitona e endro. “Tinha que dar um toque nacional e dar uma personalizada no prato. Se não, não tem graça”, declara.

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