Papai coxinha

iG Minas Gerais |

O termo “coxinha” começou a chamar minha atenção no ano passado. Ele era usado nas redes sociais, entre outras coisas, para qualificar pessoas que criticavam a realização das manifestações durante a Copa das Confederações. Era sinônimo de “conservador”, “reacionário”. Durante a abertura da Copa, em São Paulo, um grupo de manifestantes protestava contra o evento nos arredores do Itaquerão. Entre eles, alguns mascarados se preparavam para o confronto com a polícia. Eis que surge Osvaldo Baldi, 50, motorista, e começa a discutir com um deles. Era o pai clamando ao filho Renan, 16, que saísse dali. O senhor foi chamado de “coxinha”. E não foi porque ele estava acima do peso. “Coxinha” tem acepções diferentes pelo país. No Sul e no Sudeste, é, basicamente, a pessoa “certinha”, politicamente correta, conformada, que não se expõe nem ultrapassa os limites. No Nordeste, é a pessoa pouco confiável, falsa, “traíra”, para se manter no mesmo linguajar. Em Belo Horizonte, o termo é apelido de um vereador. Em São Paulo, local dos nossos personagens, a gíria ganhou mais significados. Além de identificar os novos “filhinhos de papai” e “mauricinhos”, aponta também para grupos que compartilham valores específicos, com uma necessidade de diferenciação das outras pessoas. Seria por isso que eles possuiriam individualismo exacerbado, o uso de um vestuário de marca e de ideais que refletem a proteção desse modo de vida. Eles teriam repulsa a qualquer tipo de crítica. Outro ponto interessante é que esquerdistas chamam os black blocs e manifestantes da classe média de “coxinhas” (ainda brincam, dizendo que eles têm massa, e não possuem conteúdo). Ah, não posso deixar de lembrar que “coxinha” também é gíria para “polícia”: na década de 1980, os policiais recebiam vale-refeição cujo valor era tão baixo que foi apelidado de “vale-coxinha”. Com o tempo, a gíria apelidou o criador. O que será que levou alguns a classificarem Baldi e seu filho de “coxinhas”? Será que foi o fato de o pai custear a educação ou então dizer que o rapaz não iria mudar o mundo daquela forma? “Eu quero escola, eu quero saúde. Deixa eu protestar. Minha avó quase morreu num hospital público. Você acha certo isso? Pelo amor de Deus, deixa eu correr atrás”, disse Renan ao pai. O argumento não ficou sem resposta: “Eu pago a sua escola. Eu e sua mãe trabalhamos para te sustentar. Você não vai mudar o mundo. Meu filho, você tem 16 anos, não é a hora agora. Eu te amo, cara. Você é meu filho. Eu tô pedindo demais?”, suplicou Baldi. Não sei dizer o motivo exato, não sei pensar como um “salgadeiro social”, mas se defender o filho, num protesto que estava prestes a descambar para a violência, é ser “coxinha”, eu sou um, pois compartilho desse pensamento. Onde viram um “conservador”, “careta”, vi um pai defendendo um filho. E isso não tem outro nome que não amor, mesmo que os argumentos sejam um pouco tortos. E antes que me chamem de “coxinha de 1 kg”, concordo com os protestos – temos que cobrar dos governantes, nos três níveis de governo, melhorias no retorno de nossos impostos –, mas sem violência, quebradeira ou vandalismo. Isso só leva a mais repressão e desaprovação popular. Humberto Santos escreve interinamente a coluna de Murilo Rocha

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