Como produzir sua continuação

Animação de 2010 ganha uma sequência à altura do longa original

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Amizade. Protagonistas Soluço e Banguela enfrentam emoções fortes no longa
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Amizade. Protagonistas Soluço e Banguela enfrentam emoções fortes no longa

Na Hollywood de hoje, continuações deixaram de ser uma possibilidade narrativa para se tornarem uma questão de mercado. Filmes não ganham sequências porque há mais histórias a serem exploradas, mas porque é possível ordenhar ainda mais um sucesso financeiro.

Por isso, é tão (com o perdão do trocadilho) animador assistir a “Como Treinar seu Dragão 2”. A animação faz exatamente o que uma continuação deve fazer: aprofunda-se ainda mais nos temas da obra original, expandindo seu universo e aproveitando o que deu certo, sem repetir a trama.

Se o desenho original era sobre a busca do protagonista Soluço por sua identidade, esta sequência é sobre qual tipo de líder ele quer ser. Com o pai Estoico prestes a se aposentar e passar para o garoto viking a chefia de sua tribo, Soluço tenta fugir da responsabilidade, voando com seu dragão Banguela em busca de ilhas desconhecidas, sem certeza de que quer o cargo. A situação se complica um pouco mais quando ele encontra com a mãe, Valka (voz original de Cate Blanchett), que ele acreditava ter morrido, e o vilão Drago, que deseja dominar todos os dragões.

O diretor e roteirista Dean Deblois amplia o conflito de gerações do primeiro filme, entre Soluço e Estoico, para uma escala bem mais épica. Com sua tribo convertida à ideia de que os dragões (uma metáfora para a natureza no filme) não são inimigos, o protagonista tenta levar sua mensagem pacifista para fora da ilha. Mas com a chegada de Drago, ele percebe que o mundo pode ser bem mais complexo e assustador do que sua idade permite entender.

Esse acompanhar do amadurecimento de Soluço é o segredo que torna “Como Tornar seu Dragão 2” tão universal – especialmente para os adultos. Se as crianças se divertem com as piadinhas, cores e correria, os mais crescidos conseguem enxergar ali os percalços e as lições do rito de passagem para a vida adulta.

Mas o maior acerto da sequência é não perder de vista o centro emocional da história: a amizade entre Soluço e Banguela e, como juntos, os dois superam suas deficiências físicas e psicológicas. Mesmo com as várias imagens de voo, batalhas e lutas, as cenas mais emocionantes do longa são protagonizadas pelos dois. E se Banguela levar lágrimas aos seus olhos em uma ou duas dessas cenas, o mérito é do roteiro, que faz do dragão um personagem tão complexo quanto os humanos – coerente com os princípios da trama – e dos animadores que o tornam tão expressivo.

O mesmo pode ser dito da elaboração visual de Drago, um ser que parece um pilar do arcaico saído de alguma história do Antigo Testamento. Mas a qualidade técnica da animação fica clara no design das locações virtuais.

Grande parte de “Como Treinar seu Dragão 2” consiste na descoberta de novas terras e na expansão da visão de mundo de Soluço. E com a consultoria técnica do mestre Roger Deakins (diretor de fotografia da maioria dos longas dos irmãos Coen), o filme estabelece o visual de cada um desses novos universos com a qualidade do real potencializado pela beleza da animação – do verde do santuário onde Valka habita ao marrom cinzento e sombrio da frota de Drago.

Por fim, o longa é um dos poucos exemplares recentes que justificam o uso do 3D. As cenas de voo são belíssimas e empolgantes, ganhando todo um poder de envolver o espectador na aventura de Soluço e seus amigos com a tridimensionalidade.

“Como Treinar seu Dragão 2” não é um filme perfeito. Alguns diálogos podem parecer bobos para os adultos (a dublagem piora isso) e os personagens têm a mania de expor seus pontos de vistas em longos monólogos nada sutis. Mas a trama é bem amarrada e, se o longa parece passar rápido, não é porque toda a história é uma grande correria, como na maioria das animações. E sim porque o roteiro não perde tempo com tramas paralelas desnecessárias, mas com uma noção bem clara da história que quer contar. O Oscar de melhor animação do ano que vem já pode ter um vencedor antecipado.

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