O exercício do caos criativo

Elenco mirim afinado dá vida à obra clássica do mineiro Fernando Sabino em adaptação de “O Menino no Espelho”

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

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“Já sei o que eu quero ser quando crescer. Eu quero ser criança”

Fernando Sabino, em “O Menino no Espelho”

[NORMAL_A]Um dos principais temas explorados por Fernando Sabino no livro “O Menino no Espelho” é a oposição entre o caos criativo e a ordem castradora. É um retrato da liberdade necessária à infância, que dá às histórias e memórias da época um tom bem mais próximo da ousadia subversiva da poesia do que das amarras da prosa. E o maior trunfo da adaptação da obra, dirigida pelo mineiro Guilherme Fiúza e que estreia nos cinemas de Belo Horizonte hoje, é reproduzir essa poesia da infância por meio da autenticidade encantadora de seu elenco infantil.

“Fiz o filme porque queria matar a saudade da minha infância e contar uma história que fez parte dela”, afirma a atriz Regiane Alves, que vive a mãe do protagonista, Fernando. E para ela, isso se tornou possível graças à vida que as crianças trouxeram ao set e ao carinho que se formou entre elas.

“Os meninos se ajudavam muito, puxavam a orelha um do outro”, lembra o ator Mateus Solano, que queria ser Fernando quando leu o livro na infância, mas acabou vivendo o pai dele. “Precisava de atores adultos generosos, como a Regiane e o Mateus, que entendessem que estavam ali como escada das crianças”, explica Guilherme Fiúza.

Encabeçando essa trupe mirim, está o brasileiro Lino Facioli, que vive em Londres há anos e ganhou fama como o Robin Arryn da série “Game of Thrones”. Ele havia feito um curta, “Awfully Deep”, dirigido pelo mineiro Daniel Florêncio, que também mora em Londres e é conhecido da ex-esposa de Fiúza. Ainda assim, ele não foi a primeira opção do diretor. “Ele já era um pouco grande e, como cinema no Brasil demora, eu fiquei com medo de chegar na filmagem e ele já estar enorme”, justifica o cineasta sobre Facioli, que completou 12 anos no set em 2012, com direito a bolo e tudo.

Mas depois de testar 4.000 garotos, Fiúza não estava seguro com as duas opções que tinha. “Era muito complexo e estava claro que as crianças não tinham consciência de que eram dois personagens diferentes”, conta. Ele se refere a Fernando e Odnanref, o tal “menino no espelho” que passa a ajudar o protagonista, um garoto na Belo Horizonte dos anos 1940, a viver as partes “chatas” de sua vida.

Foi quando a experiência de Lino convenceu Fiúza a se render ao garoto. “Apesar de serem extremos completamente diferentes, eles são complementares quase como um yin e yang”, resume Facioli, sem pestanejar. Ele conta que decidiu ser ator quando descobriu “que astronauta não ia dar muito certo”, e foi essa atitude irreverente e brincalhona – de quem se fantasiava de animais e inventava personagens no jardim de infância – que fez o ator cosmopolita e semilondrino não se sentir tão longe de um garoto mineiro dos anos 1940. “Tenho um cotidiano muito parecido com o do Fernando, a mania de ficar criando jogos, gosto muito de natureza”, conta.

“Ele é um garoto divertido e provocativo como o protagonista”, sintetiza Fiúza. E o fato de, por viver em Londres, Lino não ser familiar com “O Menino e o Espelho” acabou ajudando. Como o livro de Sabino é uma coletânea de episódios sem arco dramático definido, o roteiro se tornou um “salutar desrespeito à obra literária”, como define Fiúza, e a produção pediu que o ator não lesse o original para não influenciar sua construção.

“O Odnanref é quase como um alien na sociedade, tudo é novo para ele. E eu fiquei pensando como a criança tende a ficar mais comportada nessa situação”, analisa. A verve de ator veterano continua na comemoração de seu primeiro protagonista em um longa, dando a ele a chance de acompanhar a produção do começo ao fim.

Mas assim como o yin/yang de Fernando/Odnanref, “O Menino no Espelho” se beneficia do encontro da técnica de Facioli com a espontaneidade encantadora de Giovanna Rispoli, Ravi Hood e Thales Jannotti como seus comparsas Mariana, Toninho e Birica. “Depois das filmagens, a gente ia para a piscina do hotel todo dia. O Ravi virou meu irmão mesmo, e, diferente de Londres, era legal porque a gente podia sair andando pelas ruas e conhecer as pessoas”, lembra Lino, sobre as filmagens em Cataguases.

“O Lino tinha essa educação inglesa, que a gente foi quebrando”, brinca Mateus Solano. Ele e Regiane Alves recordam a excitação de apresentar Chico Anysio ao garoto. “Ele também é um menino, gosta de brincar. A gente foi dando uma gingada nele”, explica.

Mas Guilherme Fiúza dá crédito a quem é devido pelo sucesso da patota na tela grande: a preparadora de elenco Laís Corrêa (“O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”), indicada por Bráulio Mantovani. “Ela acredita que a emoção não vem da palavra. A palavra expressa a emoção”, reconhece. Em outras palavras, foi o caos criativo do elenco mirim dando vida à obra de Sabino.

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