As forças sociais e a nação

iG Minas Gerais |

A expressão da vendedora de loja, na ligeira conversa que mantinha com o cliente, é uma síntese do momento: “Parece que o país vai explodir”. Essa é a percepção que preocupa milhões de brasileiros. Mas a explosão a que se referia a lojista não dizia respeito aos urros cívicos de torcedores, face às eventuais vitórias da seleção canarinho nas exuberantes arenas esportivas que passam a acolher o maior evento esportivo mundial. Referia-se à tensão das ruas, às manifestações e aos movimentos que se espraiam por todos os lados. Seu olhar era para a dura realidade que a fez chegar ao trabalho três horas após sair de casa. O imenso contraste entre o ar pesado do momento e o clima descontraído aponta para múltiplos significados. O primeiro deles é o de que a batizada “Copa das Copas” se desenvolverá sob um tecido social esgarçado, a exibir a incapacidade do Estado no acolhimento às demandas da sociedade. Causa perplexidade o corpo social em intensa ebulição e por tanto tempo. Alguns perguntam: onde estaria o espírito cordato, a tendência à harmonia, ao diálogo, à confraternização, quando movimentos contestatórios fluem em todas as direções e sob a atenção de um Estado sem condições de acolher reivindicações de setores e categorias? Para começo de conversa, nossa alma pacífica é uma quimera. Se há um traço de união entre os eventos que pontuaram nossa história, ele é a ineficiência do Estado na administração das demandas populares. O clamor das ruas não é de hoje. O fato é que o Brasil moderno flagra uma sociedade correndo à frente das instituições. Dentro dessa moldura, é possível interpretar o que se passa. Primeiro, é oportuno lembrar os valores que contribuíram para balizar o ethos social. Por aqui, a “estadania” fixou-se antes da cidadania. Os direitos sociais vieram antes dos direitos civis e dos direitos políticos. Tal situação gerou a dependência para com o Estado, que foi obrigado a ampliar os braços assistencialistas que, na esteira da competição política, incorporaram um viés populista. Infelizmente, o cobertor, em vez de diminuir, aumenta. Veja-se o programa Bolsa Família, que começou com 8 milhões de famílias e, atualmente, conta com 13 milhões, quando a lógica aponta para a diminuição dos assistidos. Chega-se, assim, à esfera da política, que não se renova. Os métodos são os mesmos do passado. Escândalos explodem. A corrupção campeia. Os problemas se repetem. Sobressaem, na radiografia, o país da sociedade organizada e a estampa de um território de gastos superlativos, obras inacabadas, desvios de dinheiro e escândalos. Ora, não resta outro caminho que o protesto, a indignação. A pimenta nesse caldo é o pleito eleitoral. A violência faz parte da estratégia. A ciência política mostra que, na maior parte das sociedades, a paz cívica é impossível sem alguma reforma, e a reforma é impossível sem alguma violência. Já os flagrantes de nossas ruas estão a indicar que os confrontos só amainarão quando as estruturas governativas atenderem o clamor social e quando as reformas forem feitas. Enquanto isso não ocorrer, as forças sociais, como locomotiva, continuarão a puxar as instituições.

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