A culpa é das estrelas

Performances pífias de longas como “Transcendence” e “No Limite do Amanhã” marcam ocaso dos grandes astros

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Angelina Jolie sorri com os números de “Malévola”, prestes a arrecadar US$ 500 milhões nas bilheterias mundiais.
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Angelina Jolie sorri com os números de “Malévola”, prestes a arrecadar US$ 500 milhões nas bilheterias mundiais.

Há 11 anos, a Disney lançava nos cinemas um dos projetos mais arriscados da história do estúdio. Baseado em um brinquedo do parque Disneyland que quase ninguém conhecia, “Piratas do Caribe” tinha tudo para ser um novo “As Loucas Aventuras de James West”: um fracasso que só seria lembrado como um ótimo exemplo de vergonha alheia. Ou quase tudo. Nenhuma expectativa ou olho gordo foi páreo quando Johnny Depp fez o que um grande astro de cinema faz: entregou uma performance magnética, roubou o filme e transformou a produção em uma franquia bilionária.

Saltemos dez anos no tempo e Depp estrela “Transcendence – A Revolução”, que estreia amanhã nos cinemas. O longa tinha uma boa premissa, o grande astro dos anos 2000 e... foi o maior fracasso de 2014 nos EUA. O tropeço seria um acidente de percurso normal na carreira de qualquer ator, não fosse precedido por “O Cavaleiro Solitário”, um dos maiores prejuízos da história de Hollywood. Não é que o público deixou de gostar de Depp. Ele simplesmente parou de se guiar pelos astros.

O ocaso do intérprete de Jack Sparrow é um dos principais sintomas de algo que já vem se confirmando há alguns anos: o fim do “star system”. A ideia de que uma estrela pode tornar uma produção um sucesso simplesmente com sua presença é uma das ferramentas de marketing mais antigas do cinema norte-americano. Na década de 30, a comédia “Ninotchka” foi produzida a partir da simples premissa “Garbo ri” – a certeza de que o espectador veria um filme para conferir uma atriz dramática, Greta Garbo, fazendo piada. E deu certo.

Hoje, isso é impensável. Até Will Smith, considerado o último grande astro que garantia US$ 200 milhões no cofre de qualquer bomba, perdeu seu toque de Midas no ano passado com “Depois da Terra”. O star system foi substituído por franquias. O público é atraído aos cinemas não por atores conhecidos, mas por marcas que eles já conhecem: um herói dos quadrinhos, um best-seller, uma série de TV, o remake de um filme que ele já curtiu antes.

Faz de conta. Estreia na direção do diretor de fotografia Wally Pfister (“A Origem”), “Transcendence” não tem nada disso. O longa traz Depp como um cientista que, prestes a morrer, faz o upload de sua mente em um programa de Inteligência Artificial. Era uma “ideia original”, o termo mais temido hoje em Hollywood. O longa estreou em quarto nas bilheterias dos EUA, com apenas US$ 11 milhões, enquanto “Capitão América” acumulava US$ 700 milhões mundo afora.

Verdade que “Transcendence” foi massacrado pela crítica. Mas depois dos fracassos de “Oblivion”, “Jack Reacher” e “Rock of Ages”, “No Limite do Amanhã” foi um dos longas mais bem recebidos de Tom Cruise nos últimos anos. E ainda assim teve uma performance muito abaixo do esperado. Com um orçamento de quase US$ 200 milhões, o filme não fez nem US$ 30 milhões na estreia nos EUA, perdendo para o best-seller “A Culpa É das Estrelas”. O último sucesso de Cruise por lá – fora a franquia “Missão: Impossível” – foi “Guerra dos Mundos”, em 2005.

Com o cinismo do público norte-americano, o reduto das estrelas se tornou o mercado internacional, onde o espectador ainda responde a nomes como Cruise, Eddie Murphy ou Schwarzenegger. Mas nem isso é mais tão confiável assim: no Brasil, “No Limite do Amanhã” perdeu até para a comédia nacional “Os Homens São de Marte... e É para que Eu Vou” na sua estreia.

O filme que liderou a bilheteria brasileira no mesmo fim de semana foi “Malévola”. O que pode parecer a exceção, com a estrela de Angelina Jolie pairando sobre a tempestade galáctica, é na verdade mais uma confirmação da regra: a produção se baseia no conto de fadas “A Bela Adormecida” e na franquia, recentemente criada pela Disney, de releituras infantojuvenis de clássicos como o “Alice no País das Maravilhas”, de Tim Burton, e “Branca de Neve e o Caçador”, com Kristen Stewart e Charlize Theron.

Fora desse mundo de faz de conta, nem o brilho somado de Jolie e Johnny Depp conseguiu salvar a bomba “O Turista”, por exemplo. O caso da sra. Brad Pitt é similar ao de Robert Downey Jr. O ator pode ser creditado como o astro da segunda maior bilheteria de 2013, “Homem de Ferro 3”, mas seu poder ainda não foi testado fora das franquias da Marvel e da série “Sherlock Holmes”.

O mais perto que ele chegou disso foi na esquecível comédia “Um Parto de Viagem”, que não passou nem perto dos números astronômicos de suas outras produções. O gênero da risada, por sinal, é o espaço per se do “astro”, com nomes como Charles Chaplin, os irmãos Marx, Steve Martin ou Jim Carrey, dizendo mais sobre seus filmes do que a própria trama.

Só que nem a comédia está a salvo do fim das constelações. Adam Sandler, o paradigma do “astro à prova de críticas”, levou uma surra nas bilheterias norte-americanas com a produção “Juntos e Misturados”, em que ele se reúne com Drew Barrymore e que estreia no Brasil em julho. É o sinal definitivo de que o longo tempo necessário para que uma estrela se apague no céu após morrer parece finalmente ter se completado.

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