As três vezes em que vi Stuart

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Eu dirigia meu Volks 66 em silêncio. No banco de trás, estava um casal abraçado, como se estivesse namorando. Mas um filete de sangue escorria da cabeça do rapaz, que a moça estancava com um lenço. Ao meu lado estava Stuart Angel Jones me indicando o caminho. “Por ali, por aqui, dobra a esquina”... Em um determinado ponto, Stuart me mandou parar o carro. “Daqui em diante eu vou dirigir. Vocês fechem os olhos” – tanto eu quanto o casal ferido. De olhos fechados, notei que Stuart deu mais umas voltas com o carro dentro da noite. Vislumbrei por um segundo que entrávamos na região do Catete, por ali. No aparelho para onde eles iam (eu era um mero simpatizante-chofer) encontrariam um médico que tivera a filha assassinada pela repressão e que agora tratava dos outros guerrilheiros. Ele já tinha operado um ferido na mesa de jantar de um amigo, na base do clorofórmio e de poucos instrumentos. Nunca entrei de cabeça no movimento MR-8 por descrença e também por medo de morrer. Falta de coragem e de fé. Eu e alguns cineastas já fôramos procurados por Mario Alves (fundador do PCBR) para entrar na luta armada. Ninguém foi. Alguns meses mais tarde, soubemos que Mario Alves fora preso e levado ao quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita. Foi espancado barbaramente de noite, empalado com um cassetete dentado, o corpo todo esfolado por escova de arame, por se recusar a prestar informações exigidas pelos torturadores. Depois disso, eu estive apenas três vezes com Stuart Angel. Já abalado pela violência e pela eficiência da polícia, conversei com ele na casa de uma amiga que o abrigou durante um tempo. Lembro-me de que ele estava ouvindo uma música de João Gilberto na vitrola da sala. Na segunda vez, tive um encontro com ele em frente ao antigo Jardim Zoológico, em Vila Isabel. Fui levar uma mala cheia de aparelhos cirúrgicos e munição. Não me segurei e falei: “Você não tem medo de ser preso, Stuart?” Ele sorriu e respondeu: “Se eu for preso, não digo nem meu nome”. Impressionou-me a imensa calma de sua resposta. Não fez bravata, não mostrou medo. Apenas disse que não diria nem o nome. E foi em frente, depois de me abraçar. Fiquei emocionado com sua figura solitária indo embora, movido por uma certeza profunda. Foi a última vez que o vi, olhando sua partida com misto de grande admiração por sua coragem e um grão de menosprezo por sua louca luta contra um exército inteiro. A outra vez já contei acima. Na semana passada, li no jornal que Stuart tinha sido enterrado na cabeça da pista de um aeroporto. Depois que foi preso, ninguém soube dele, apesar dos esforços de sua mãe, Zuzu, e de sua ascendência norte-americana – Angel Jones. O oficial encarregado do caso foi o brigadeiro Burnier. Esse homem foi descrito pelo brigadeiro Eduardo Gomes como um “um doente mental inspirado por instintos perversos e sanguinários, sob o pretexto de proteger o Brasil do perigo comunista”. Meu pai, também brigadeiro, falou-me a mesma coisa. Esse cara ficou sinistramente famoso porque planejou explodir o gasômetro do Rio ali em São Cristóvão, o que resultaria em mais de 100 mil mortes. Foi impedido pelo heroico capitão-aviador Sergio Miranda de Carvalho, o Sergio “Macaco”, que se recusou a cumprir a ordem psicótica do Burnier. O poder total faz aflorar uma casta de psicopatas que dormiam na sombra. Surge o perverso prazer das torturas, a delícia de “matar a morte” no corpo do outro. Simetricamente à psicose da violência, além da bruta crueldade dos criativos carrascos, espantava-me também a convicção dos guerrilheiros diante de uma impossível vitória. Na época, Carlos Marighella escreveu em seu “Manual do Guerrilheiro Urbano”: “As qualidades importantes no guerrilheiro urbano são: que possa caminhar bastante; que seja resistente a fadiga, fome, chuva e calor; conhecer como se esconder e conquistar a arte de ter paciência ilimitada; manter-se tranquilo nas piores condições. As armas do guerrilheiro são inferiores às do seu inimigo, mas o guerrilheiro urbano tem uma vantagem que não se pode negar: o valor moral. A superioridade moral é o que sustenta o guerrilheiro urbano”. Ou seja, a luta armada foi muito influenciada pela ideia de sacrifício heroico, de clandestinidade e sofrimento. E assim como o poder totalitário promove a brutalidade, a tortura com a certeza de que estariam defendendo o “bem”, por outro lado, a ausência total de saídas gerou uma espécie de cidadania armada, uma cidadania clandestina, uma liberdade cercada de morte, uma fé irrefreável do tipo do “credo quia absurdum” (creio mesmo que seja absurdo). Matava-se e morria-se em nome de um “bem” imaginário. Naquele tempo, estávamos encalacrados no contexto histórico da Guerra Fria, o que não deixava opções nem para militares da ditadura nem para os guerrilheiros. A época forma as mentes. O medo ao comunismo tinha armas poderosas, treinamentos da CIA etc., e os combatentes acreditavam que seria possível derrubar a ditadura. Eram fantasmas combatendo fantasmas. Hoje, conhecemos a complexidade política do Brasil, muito além de extermínios e martírios. Foi o último embate para o nascimento de uma consciência democrática. Creio que o importante agora é a análise dos crimes, das mentiras e ingenuidade atuais, e não apenas do passado. Por isso, a mais proveitosa ação contra a ditadura foi o sequestro do embaixador norte-americano Elbrick, que abriu a imensa brecha na mídia do mundo todo e desmoralizou a repressão. Foi um ato moderno, que não buscava a clandestinidade, mas a repercussão aberta. Isso provocou uma fama imensa para os guerreiros, uma respeitabilidade, uma credibilidade que não tinham. É isso aí. Quanto a mim, não posso imaginar o sofrimento e o pavor de Stuart quando foi preso e levado por ordens do Burnier para o pátio do quartel-general da 3ª Zona Aérea do Rio. Lá, diante da tropa, ele foi amarrado ao para-choques de um jipe e arrastado com o cano de descarga na cara, até morrer asfixiado. Mas sei que ele não disse nem o nome.

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