Clandestinidade sem controle

Campanhas fazem discurso de debate civilizado, mas na web proliferam perfis de conteúdo duvidoso

iG Minas Gerais | Flávia Carneiro |

Criador e criatura. Publicitário carioca ao lado da presidente: troca de ataques com inimigos políticos
Roberto Stuckert Filho/PR
Criador e criatura. Publicitário carioca ao lado da presidente: troca de ataques com inimigos políticos

Enquanto o país do futebol se entrega à festa da bola, na internet um outro assunto tem atraído a atenção dos brasileiros: a guerra em torno da eleição de outubro. Oficialmente, o discurso dos que duelam pelo comando do país parece bastante razoável: apesar de reconhecerem que uma batalha acirrada já está colocada, pré-candidatos e suas equipes juram que estão pautados pela ética e comprometidos com um debate “de alto nível”, inclusive no mundo virtual.

Mas a incoerência surge ao primeiro clique. Na internet pipocam páginas e perfis clandestinos, que espalham todo tipo de boato envolvendo políticos. A todo momento, surgem falsas notícias. E, como quase tudo que cai na rede, em segundos o estrago está feito.

Compartilhamento atrás de compartilhamento, dificilmente o que foi replicado à exaustão voltará às timelines devidamente esclarecido. Para piorar, a própria Justiça Eleitoral admite ainda não dispor das ferramentas completas para combater o que é nocivo ao debate político no campo virtual.

Diversos sites e perfis não oficias no Facebook e no Twitter, por exemplo, têm interesses diretos com os principais pré-candidatos ao Palácio do Planalto, apesar de oficialmente todos pregarem isenção de opiniões no debate. Algumas dessas páginas são verdadeiros fenômenos de popularidade. É o caso da TV Revolta, que até a última semana já contava com mais de 3,5 milhões de seguidores. O radialista paulista João Vitor Almeida Lima aparece como criador da página. O público da TV na web impressiona quando comparado ao alcance do Jornal Nacional, principal telejornal do país na TV aberta, visto em média por 16,2 milhões de brasileiros diariamente.

Segundo a Social Bakers, uma das maiores empresas na análise de dados de redes sociais, a TV Revolta foi a página na categoria mídia que mais cresceu na rede social no mundo na segunda semana de maio. Superou o próprio Facebook, segundo colocado na lista.

Com piadas toscas e vídeos apelativos, a TV Revolta já acumula cerca de 27 milhões visualizações. Em sua maioria, os ataques são direcionados ao governo Dilma Rousseff e ao PT.

Na outra ponta são os petistas que se beneficiam da extraordinária popularidade de outro fenômeno do Facebook: Dilma Bolada, perfil fake da presidente Dilma Rousseff criado pelo publicitário carioca Jefferson Monteiro. O que a diplomacia e o “alto nível” do debate não permitem à Dilma de verdade, a Bolada libera com humor dilacerante. Recentemente, o próprio Monteiro se envolveu em uma briga com gente supostamente ligada ao PSDB. O publicitário denunciou que teria sido cortejado por inimigos políticos da presidente interessados em “comprar” o perfil.

A verdade é que Dilma Bolada tem feito tanto sucesso que já deu origem à cópia da cópia. Um segundo perfil com o mesmo nome já acumula mais de 120 mil curtidas. Algo ainda tímido se comparado ao “original”, que até a última semana era seguido por 1,1 milhão de internautas. Nem a própria presidente Dilma conseguiu tal feito. O perfil oficial da petista tinha até quinta-feira passada 565.261 curtidas.

Fofocas. Especialistas divergem sobre o peso que a internet terá na eleição. Para alguns, as redes sociais serão usadas apenas para repercutir boatos plantados pelas campanhas. Outros acreditam que a rede será decisiva nesse pleito. “A internet se transformou em um espaço de eco para campanhas controladas pelas equipes dos candidatos, por isso, perdeu legitimidade”, analisa o cientista político da PUC-Minas, Maico Camargos.

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