‘De 80% a 90% dos usuários de drogas não são viciados’

Carl Hart - Neurocientista, Professor adjunto nos departamentos de Psicologia e Psiquiatria da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

“Não defendo o uso ilegal das drogas, mas uma educação pública mais realista”
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“Não defendo o uso ilegal das drogas, mas uma educação pública mais realista”

Após mais de 20 anos de pesquisas sobre as drogas, o autor do livro “Um Preço Muito Alto” contesta o senso comum e propõe um novo olhar sobre a questão da dependência e da educação pública antidrogas.

Pesquisando as drogas há 23 anos, como você chegou à conclusão de que esse é um problema derivado de vários fatores (pobreza, a política antidrogas e o desemprego)? As pessoas tornam-se viciadas por uma variedade de motivos que vão desde distúrbios psiquiátricos até razões econômicas. Por exemplo, se uma pessoa usa heroína para lidar com a ansiedade ou algum trauma, um efetivo tratamento psiquiátrico da doença deve diminuir a necessidade de uso da droga. A lição aqui é: um sapato não serve para todos, e só uma avaliação cuidadosa pode ajudar os viciados.

Por que cerca de 90% das pessoas que usam drogas como crack, heroína, metanfetamina, maconha não são viciados, e não o contrário, como pensamos?

De 80% a 90% dos usuários de drogas não são viciados. A maioria deles é de membros responsáveis da nossa sociedade, até mesmo os usuários de crack. Um exemplo é o prefeito de Toronto, no Canadá, Rob Ford. Ele admitiu que usava crack, mas fazia seu trabalho normalmente, pagava seus impostos e cuidava de sua família.

Como chegou ao critério que, para julgar se alguém é, ou não, viciado, leva em consideração as funções psicossociais?

Saber que alguém usa droga, mesmo que regularmente, não nos diz se ele(a) é “viciado(a)”. Para atender a definição mais aceita de dependência – explicada pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM, na sigla em inglês) – o uso de drogas deve interferir em funções vitais importantes, como relações familiares, trabalho e relacionamentos íntimos. Ou seja, é quem continua usando apesar das consequências negativas, quando o uso persiste mesmo após repetidas tentativas de parar, e isso toma grande parte do seu tempo e energia. Também pode incluir a necessidade de maior quantidade de droga para obter o mesmo efeito e sintomas de abstinência se o uso é interrompido.

Qual é o papel da neurociência para explicar a dependência química?

A neurociência não tem um papel sozinha. Deve ser combinada com outros campos de estudo, a fim de contextualizar o problema. Caso contrário, as pessoas podem, por engano, interpretar diferenças cerebrais como patologia.

Em uma entrevista, você disse que “nós precisamos das drogas, e toda sociedade sempre as utilizou”. Por quê?

Os seres humanos sempre tentaram alterar a sua consciência. Em um jantar, por exemplo, as pessoas usam álcool para atingir esse objetivo. Para outros, ele torna as pessoas mais interessantes. As pessoas usam drogas, como cocaína e heroína, em maneiras similares.

Fale um pouco sobre os resultados de um experimento humano que você fez recentemente sobre a escolha entre droga e dinheiro. Você ficou surpreso com suas descobertas? Achei que seria interessante descobrir se os dependentes teriam seus comportamentos em relação à droga alterados, se lhes fossem oferecidas alternativas, como dinheiro. Em um estudo com os viciados em metanfetamina eles preferiram a droga em metade das oportunidades, mas quando aumentamos a quantidade de dinheiro de US$ 5 (R$ 11)para US$ 20 (R$ 44), eles quase nunca escolheram a droga. Nós já havíamos obtido resultados semelhantes com viciados em crack em um estudo anterior. Esses resultados demonstraram que os viciados podem tomar decisões racionais e essa informação pode ser usada no desenvolvimento de novos tratamentos.

O que você diria para um filho ou parente a respeito de drogas e álcool? Eu entendo quando os pais levantam essas questões e acham que é melhor exagerar nas consequências nefastas da droga, para manter os filhos longe delas. Eu também sou um pai preocupado com meus três filhos e, meus mais de 20 anos de experiências em pesquisas sobre as drogas têm me ensinado muitas lições importantes, mas talvez nenhuma mais importante da que os efeitos das drogas são previsíveis. Por outro lado, os efeitos da interação entre jovens negros e a polícia não são previsíveis. Eu não defendo o uso ilegal de drogas, mas sim uma educação pública sobre as drogas mais realista. Não devemos desinformar os filhos ao dizer que se eles usarem alguma droga uma vez, eles se tornarão dependentes.

O que mais contribui atualmente para essa desinformação a respeito das drogas?

As pessoas ignorantes e desinformadas oferecendo publicamente “educação sobre drogas”.

O que precisa ser feito para mudar essa visão atual que você considera errada?

As pessoas devem passar a se concentrar em fatos, e não apenas em anedota ou histeria.

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