Profissão em extinção

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Da série de profissões em extinção diante das mudanças tecnológicas, me deparei com uma nesses dias que se distingue de outras por ter durado relativamente pouco tempo. Na porta da locadora de DVDs que eu frequentava, principalmente nos fins de semana, estava uma faixa anunciando o fechamento da loja e a venda de unidades dos filmes do estoque para os clientes. Foi uma ingrata surpresa para mim e para uma freguesa que, quando eu entrei na loja, perguntava à dona da locadora a razão da má notícia. “A pirataria venceu”, foi a resposta dela, externando com dificuldade um sentimento de impotência diante dessa realidade que é a venda de filmes piratas a céu aberto, numa concorrência desleal com quem precisa arcar com os custos de manter uma empresa formal no Brasil. Incomodado com o fato, no dia seguinte telefonei para o Eduardo, que eu conhecia, e que tocava o empreendimento com a esposa, Kátia. A locadora em questão ficava no centro da cidade de Sete Lagoas. Por diversas vezes acompanhei iniciativas dele na tentativa de acionar autoridades para o combate à pirataria, mas infelizmente deu com os burros n’água. E não foi só ele. Os dados que me passou confirmam a locação de filmes como uma profissão em extinção. Eduardo contou que iniciou o negócio há 12 anos, quando Sete Lagoas tinha 28 locadoras. Após abrir a primeira loja, ele inaugurou mais duas na cidade, ou seja, eram 31 em funcionamento, e agora, com o fechamento, resta apenas uma, de outro empresário, para uma cidade de mais de 200 mil habitantes. Já pontos de vendas de filmes piratas todo mundo sabe onde ficam, com lojas físicas mesmo. Quando estava no auge de operação em suas três lojas, Eduardo chegou a ter 50 funcionários, possuía um catálogo de cerca de 20 mil filmes e, fichados, de 20 a 25 mil clientes. Ou seja, um círculo aparentemente sedimentado para ruir em pouco mais de uma década. Ele resistiu o quanto pôde. Mas daí é só puxar a memória para lembrarmos as locadoras que tínhamos próximas de casa ou que frequentávamos perto do trabalho e que não existem mais, para ver como a coisa degringolou. Eduardo acompanha também esse mesmo cenário em Belo Horizonte e comenta como restaram poucas locadoras (a primeira delas na capital, a Videomania, fechou em janeiro do ano passado), e assim acredita que seja também em todo o país. Embora reitere que a pirataria tem papel preponderante para a derrocada dessa atividade de maneira formal, ele também reconhece outros fatores que hoje afastam mais aqueles que frequentavam assiduamente as locadoras: a expansão da TV a cabo, o acesso a filmes pela internet, o Netflix, a maior ocupação das pessoas com outras atividades, a venda de cópias legais no comércio em geral, como as redes de varejo, enfim. Quando tentou provocar uma cruzada de combate à pirataria na cidade, Eduardo chegou a receber ameaças. Contou que pessoas foram até a porta da casa dele e gritaram que ele não sabia com quem estava mexendo para tentar prejudicar quem estava trabalhando (na ilegalidade?)! O que o Eduardo e a Kátia vão guardar é o carinho dos clientes, centenas que lamentaram o fechamento. Ele relatou que algumas pessoas choraram e outras pediram pra tirar fotos com ele e a esposa para guardar. Nesse último dia que visitei, trouxe para casa uma edição de colecionador de “Taxi Driver”, clássico que no começo dos anos 70 relevou ao mundo do cinema a arte do diretor Martin Scorsese. Será a minha lembrança dali, neste junho de 2014. Penso que para quem foi frequentador de locadoras, elas têm também essa magia de você buscar as histórias do cinema e levar para casa. Uma fonte de descobertas. Não consigo recordar a quantas me associei, foram muitas, em cidades diferentes, você se lembra da suas?

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