Coldplay se transforma com morbidez eletrônica

Sexto álbum de inéditas da banda tem letras intimistas, mas peca com som computadorizado

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Banda. “Ghost Stories” se diferencia de trabalhos anteriores do Coldplay por carregar na eletrônica
shenzeparthy/divulgação
Banda. “Ghost Stories” se diferencia de trabalhos anteriores do Coldplay por carregar na eletrônica

Esqueça o piano arrepiante do Chirs Martin, bem como a sua variação de gritos extasiados e sussurros poéticos, além daqueles refrões sentimentais de cinema que o Coldplay costumava grudar nos ouvidos de multidões. Em “Ghost Stories” (Atlantic Records e Parlophone, R$ 34,90), sexto álbum de estúdio do quarteto britânico lançado no mercado no mês passado, parece existir outra banda por trás dos mesmos músicos. Apoiados em sintetizadores e uma infinitude de barulhinhos eletrônicos estranhos, o Coldplay foge de todos os outros trabalhos da carreira com um disco que beira a morbidade e esconde o som clássico e marcante dos instrumentos de seus músicos.

O que mais chama a atenção em “Ghost Stories” é justamente a ausência da identidade do Coldplay. O baterista Will Champion se rendeu a mixagens simplistas de computador e não segura as baquetas sequer em uma canção do álbum. Já a guitarra de Jonny Buckland, que parece estar ausente do estúdio, raramente dá o ar da graça, assim como o piano marcante do vocalista Chris Martins desaparece em meio a sintetizadores exaustivos.

Mesmo assim, “Ghost Stories” parece ter agradado aos fãs da banda ao bater as 383 mil cópias virtuais vendidas na primeira semana de divulgação, após a abertura da pré-venda do disco exclusivamente pelo iTunes, no último dia 16 de maio. Além disso, o álbum conquistou o primeiro lugar das paradas norte-americanas nesse mesmo tempo, segundo a lista da revista norte-americana “Billboard”.

Talvez a explicação esteja na identificação do público com a aura sombria que carregam as letras tristes do disco. O fantasma no título do “Ghost Stories” remete nitidamente à introspecção do líder da banda Chirs Martin nos últimos meses, devido à separação com a atriz Gwyneth Paltrow durante a composição do disco.

Possivelmente por isso, o novo trabalho do Coldplay mantenha a mão do vocalista afiada para escrever sobre amores partidos e lamentos de solidão que sempre arrebataram os fãs da banda, como na faixa “O”, que discorre sobre a libertação amorosa com uma ponta de nostalgia: “Apenas um bando de pássaros / É assim que você acha o amor (...) / Talvez um dia eu vou voar ao seu lado”. Ou ainda em “Midnight”, que acompanhada de um pianinho repetitivo versa sobre a lucidez da perda e o vislumbre do recomeço: “Nós estamos enrolando um ao outro com desculpas / Um amor que acabou / Deixe uma luz”.

Em 9 faixas, o disco vai passeando por canções intimistas que parecem refletir sobre o silêncio, como “True Love” e “Oceans”, até baladas eletrônicas que chegam bem perto da veia pop de “X&Y” (2005), como na canção “Magic”, uma das poucas músicas em que é possível ouvir Chirs Martin ensaiar seu coro característico de “uuu” no meio da letra, junto à bateria eletrônica e solos de guitarra leves e bem discretos.

“Ghost Stories” ainda tem todo o encarte e capa assinadas pela ilustradora Mila Fürstová, que trabalhou um ano inteiro em desenhos minimalistas a pedido da banda. O par de asas de anjo solta num céu estrelado que estampa a capa do disco é recheado de simbolismos que dialogam com a ideia da maioria das músicas, como um casal apaixonado, uma jovem solitária à luz de velas e um rapaz se contemplando no espelho sozinho.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave