O dia que ainda não terminou

Grupo Oficcina Multimédia celebra obra de James Joyce hoje, n a 24ª edição do Bloomsday em Belo Horizonte

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

fotos hugo honorato / divulgação
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Segundo a professora de literatura Magda Veloso, existe um motivo pelo qual a maioria dos leitores tacha James Joyce de difícil ou ‘ilegível’. “Quando eles pensam no autor, a primeira coisa que vem à mente deles é “preciso ler ‘Ulisses’”, descreve. Os leitores, então, tentam e acham o livro monótono porque é a história de um dia. “Mas não é monótono. Porque são mil histórias de um dia, de um século e da humanidade”, contrapõe.

Histórias que vêm sendo revividas, reinterpretadas e multiplicadas pelos fãs do autor em todo o mundo, anualmente, no mesmo dia 16 de junho narrado na obra. Imortalizada há décadas como o Bloomsday, em homenagem ao protagonista Leopold Bloom, a data é celebrada em Belo Horizonte desde o fim dos anos 1980 pelo Grupo Oficcina Multimédia (GOM) e tem sua 24ª edição hoje, a partir das 18h, na Casa Una de Cultura.

O caso de amor transcontinental entre o grupo de teatro mineiro e o autor dublinense começou com a trilogia “Navio-noiva e Gaivotas” (1989), “Epifanias” (1990) e “Alicinações” (1991). Na tradição do GOM de dialogar com outras linguagens, os espetáculos foram inspirados em textos de Joyce, que o elenco descobriu quando um ator apresentou “Finnegans Wake”, último romance do escritor, ao grupo.

“Me identifiquei muito porque a combinação de palavras e o ritmo do livro eram música, e minha formação é musical. Joyce dizia ‘leiam em voz alta porque, se vocês não entenderem, vão escutar a música do texto”, lembra Ione Medeiros, coordenadora do GOM.

O desejo de se aprofundar ainda mais nesse diálogo com o autor levou o grupo a organizar as primeiras edições do Bloomsday na capital. “Para nós, é um exercício de criação, e começamos a divulgar para atrair mais pessoas para essa experiência”, explica Medeiros. Segundo ela, ainda que não seja um grande evento (a Casa Una comporta 60 pessoas), o Bloomsday não é exclusivo ou restrito a uma elite entendedora de Joyce.

“Não existe um aviso ‘só entra se leu ‘Ulisses’ de cabo a rabo’ na porta”, brinca. Pelo contrário, o encontro atrai muitos jovens que nunca leram ou ouviram falar do autor irlandês e têm ali um estímulo a conhecê-lo. “Pode não ser uma forma acadêmica de comemorar, mas tem muito a ver com o Joyce, que era um grande marqueteiro, adorava aparecer e criar polêmicas para fazer mais gente se interessar por seus livros”, provoca.

Esse espírito está bem claro em “Chuva de James Joyce”, tema do Bloomsday 2014. Com o objetivo de permitir que as pessoas levem para casa esse “teaser” do universo do autor, o GOM criou neste ano uma instalação plástico/sonora que oferece ao público pequenas porções de textos joyceanos, no formato de bilhetes associados a gotas de chuva, que poderão ser lidos e levados como recordação.

“A chuva não escolhe onde cai e isso representa para nós a democratização da festa”, celebra Medeiros. Além da instalação, a noite traz a leitura ilustrada de dois dos famosos “Contos Dublinenses”, cuja publicação completa 100 anos em 2014. “Um Caso Doloroso” será acompanhado por um desenho ao vivo, e “Eveline” será lido com um vídeo produzido pelo GOM.

“Sempre aconselho ao não-iniciado começar Joyce pelos contos. Eles são curtos, têm uma linguagem simples, mas nem por isso menos rica ou com personagens menos complexos”, sugere Magda Veloso. Já Ione Medeiros compara os mesmos aos contos de Machado de Assis e Tchékov. “Eles vão na essência do ser humano e, em poucas palavras, criam um mundo”, opina.

Completando a noite, o Bloomsday exibe vídeos com imagens das edições anteriores, além do documentário francês “Grandes Escritores – James Joyce” e a adaptação de “Retrato do Artista Quando Jovem”, dirigida por Joseph Strick em 1992. O público também poderá participar do tradicional escambo inspirado no capítulo de “Ulisses” em que Joyce lista as quinquilharias esquecidas em uma gaveta. O visitante é convidado a deixar algo, e levar algo, na gaveta do evento.

“Joyce não se preocupa com grandes heróis ou acontecimentos, mas em ter motivos para escrever”, avalia Medeiros. Ela explica que descrever um fundo de gaveta pode parecer sem importância, mas o autor dá uma dimensão ao desenvolvimento das palavras. “E isso é fazer literatura. O conteúdo em Joyce é a própria literatura”, analisa.

Magda Veloso comprova isso com aquele que é apontado como um dos maiores exemplos da genialidade de “Ulisses”. “Tem um capítulo em que ele usa todos os estilos pelos quais a literatura inglesa havia passado até os dias dele”, afirma. Segundo a professora, ele adequa a linguagem de cada episódio ao elemento tratado, chegando inclusive a criar vocábulos.

Mais que uma metalinguagem vazia, porém, Veloso acredita que essa foi a forma de Joyce fazer sua revolução. “Ele viveu durante um tempo muito conturbado na história da Irlanda e nunca falou disso abertamente em nenhuma história. Mas o passo que ele deu foi recusar a Irlanda atrasada fazendo sua revolução na linguagem”, defende.

“Dizem que, se Dublin fosse devastada por um desastre, ela permaneceria viva na literatura de Joyce”, acrescenta Medeiros. Porque nos detalhes, nas personagens e na demolição do que precisava ser demolido, sua obra inseriu a cultura do país na modernidade. “Apesar da analogia com a ‘Ilíada’, o Leopold Bloom de ‘Ulisses’ é um homem comum: marido, pai, filho, corno, classe média. Ele não faz nada de heroico. Porque, em Joyce, viver é um heroísmo”, define Magda Veloso.

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