Com provocações e bom humor, Copacabana tem noite argentina

Eles - assim como uruguaios, mexicanos, colombianos, costarriquenhos e outros, em muito menor número - se distribuíam por toda a parte, mas fizeram uma concentração especial na altura do hotel Copacabana Palace

iG Minas Gerais | Folhapress |

Nunca Copacabana havia tido uma noite tão argentina. Na véspera do jogo de estreia do país vizinho no Maracanã, milhares de argentinos tomaram o calçadão da praia da zona sul. Eles - assim como uruguaios, mexicanos, colombianos, costarriquenhos e outros, em muito menor número - se distribuíam por toda a parte, mas fizeram uma concentração especial na altura do hotel Copacabana Palace. No local, fica o portão de acesso à Fan Fest da Fifa na praia, mas os argentinos não estavam muito interessados em Japão e Costa do Marfim. Eles preferiram juntar-se para, com tambores e bandeiras, reproduzir no Rio uma prática comum nos clubes argentinos: o "alentazo" (lê-se alentaço), que significa o ato de torcer para a equipe como se fosse um jogo, mas sem o jogo. Na tarde do sábado (14) houve alguns problemas, argentinos se excederam e obrigaram as forças de segurança a intervir. Basicamente, o que aconteceu foi que os argentinos invadiram a avenida Atlântica. Para manter a pista livre, a polícia recorreu ao uso de gás de pimenta. Os argentinos, porém, retomaram o calçadão e não entraram em confronto com os policiais. RIVALIDADE À noite, o alentazo durou até por volta de meia-noite, com pelo menos mil torcedores. Fora do núcleo, onde ficam os tambores e os "hinchas" mais exaltados, os argentinos caçavam vítimas para brincar. Os favoritos eram os uruguaios, que perderam para a inexpressiva Costa Rica por 3 a 1 na tarde do sábado. Um caso de simpatia suspeita apareceu em Copacabana, com os poucos torcedores costarriquenhos cercados e assediados por argentinos para fotos e brincadeiras contra os uruguaios. "Somos um país muito pequeno, temos só 3 milhões de habitantes. Jogamos bem contra Brasil e Argentina, mas contra adversários que parecem fáceis, tudo se complica", afirma o bartender uruguaio Fabian Martínez, enrolado à bandeira de seu país e cercado por dez compatriotas. A reunião noturna de argentinos foi pacífica. Depois do confronto da tarde, a polícia passou a observar os visitantes à certa distância. Não houve depredações sérias, mas alguns torcedores subiram sobre latas de lixo de plástico, que ficaram um pouco deformadas. Um fiscal do Lixo Zero - programa da prefeitura carioca que aplica multas a quem jogar lixo no chão - provavelmente faria a festa com latinhas de cerveja e guimbas de cigarro depositadas em local impróprio. Alguns argentinos também urinavam atrás dos coqueiros que ficam na areia. Nada muito diferente do que faria uma torcida brasileira. CÂNTICOS E cantavam. Repetiam. Repetiam. Repetiam. Valter de Andrade, vendedor de cerveja na praia, dizia não aguentar mais. "São só umas três músicas", afirmava. "Soy argentino, este sentimiento no puedo parar Olé, olé.. Olé.. Olá Y cada dia te quiero más" Orientados pela Guarda Municipal, os estrangeiros não puderam montar barracas na areia. Com a noite estrelada, o teto seria mesmo só um detalhe: com bandeiras como lençóis e mochilas como travesseiros, os turistas menos endinheirados ficaram no limite da lei e dormiam a céu aberto. A insistência dos argentinos no assédio às mulheres, muito conhecida em praias do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, foi reproduzida na noite do Rio. Algumas corriam, outras apenas os empurravam. E muitas riam e deixavam a cantada de lado. Depois que a Fan Fest fechou as portas, com o fim do duelo em que Didier Drogba empurrou a Costa do Marfim para a virada sobre o Japão, seguiu-se o cenário das pequenas e sadias provocações. Um grupo de brasileiros com camisas amarelas passou a responder com letras chulas ao cântico hermano de que "Maradona é maior que Pelé". Os argentinos se olhavam, tentavam entender a letra, e no final, mais provocação, mais risadas. CUSTOS Já à distância, uns 200 metros, o grupo de argentinos que ocupou o pátio estreito de um posto de gasolina para estacionar seus motorhomes, já na praia do Leme, conversava, bebia e jogava cartas. O veículo que também é casa foi a saída econômica encontrada para viabilizar o sonho de ver o Mundial. "Nos pegaram pelos dois lados. Houve inflação na Argentina e houve inflação no Brasil", lamentava o vendedor de carros Fernando Guzman, de Buenos Aires. No país pela terceira vez, ele disse ter vindo ao Brasil sob a ilusão de que obras de infraestrutura transfigurariam o país. "Não está nada muito diferente das outras vezes que vim", disse o argentino. Ele avalia que a polícia brasileira exagerou ao lançar gás lacrimogêneo para conter os compatriotas, mas nada que o faça gostar menos do país. "Vamos pelo Mundial, vocês já tem cinco", afirmou Guzman, sugerindo que o Brasil não precisa do sexto título. E o domingo (15) chegou. É só o começo.

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