Suor honorífico e suor degradante: final

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Intervenção sobre “O banho turco”, de Ingres
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Tenho amigos que pagam para suar. E outros que ganham para suar. Um dos últimos, Ronei da Silva (simples assim), ganhou ontem R$ 40,00 por dois litros de suor, média de R$ 20,00 por litro. Exerce a profissão de pau para toda obra. De manhã, fabricou uma cancelinha de madeira com taramela para impedir invasão de cachorros. Serrou, lixou, pregou e no final, satisfeito, me exibiu a obra-prima. Do lado de fora, os cachorros abanavam o rabo sem entender nada, apenas que a passagem estava interditada. De minha parte, matéria-prima. Da parte dele, suor. De tarde, fechou o vazamento de um cano estourado por uma raiz de ipê roxo (ou amarelo, não tenho certeza). Com uma serrinha elétrica partiu o resto do cano, depois de cavar durante mais de uma hora em busca do furo. Limpou o buraco e aplicou um tampão firme e forte. Nem uma gota mais escapando da caixa. Levou seus quarenta contos e foi embora, feliz da vida. ANIMAIS HONORÍFICOS Cavalos, cães e gatos são animais honoríficos. Servem para o que servem, ou menos. Alguns custam fortunas, especialmente cavalos. Cães e gatos enfeitam e enchem o tempo ocioso de seus donos. Vira-latas, não. Estes apenas latem e caçam ratos. Os grã-finos comem e dormem, muitas vezes no colo dos donos. Na clínica veterinária que frequentei algum tempo, por conta da leishmaniose do Fox paulistinha Digo, todos os cachorros valiam mais do que Ronei da Silva. Caísse este duro numa esquina, as dezenas de pobres e desvalidos vizinhos chegariam perto, olhariam com espanto, e avisariam mulher e polícia. Fim de papo. Caso um cachorrinho daqueles batesse as botas – depois de tratado em UTI com direito a acompanhante e soro na veia – seria um escarcéu infinito. Depois, velório com coroa de flores, vela, roupinha a caráter, cantoria de despedida e – para não dizerem que não estava na moda – cremação. Com as cinzas espalhadas de helicóptero. Entre os animais honoríficos, vi inúmeros bípedes na dita clínica. Não ganham para suar, mas pagam caro, e com o maior prazer. SUOR HONORÍFICO Quem paga para suar? 1) Frequentadores de academia ou corredores de fins de tarde; 2) atletas de fim de semana de qualquer esporte que exija esforço físico; 3) frequentadores de boates; 4) políticos disputando a primeira eleição; 5) aspirantes a pastor; 6) jornalistas perseguindo celebridades; 7) qualquer atividade física que se pratique objetivando ouvir, ao final da prática, a expressão “sensacional!” ou similar; 8) qualquer atividade sudorífera destinada a conquistar futuros adeptos. Tem mais? Tem. São infinitas as atividades em que se paga para suar. SUOR DEGRADANTE Quem ganha para suar? 1) Personal trainers; 2) professores de dança; 3) craques e pernas de pau de qualquer esporte, sofisticado ou não; 4) políticos disputando reeleição; 5) prostitutas; 6) cozinheiros, padeiros, confeiteiros, garçons; 7) pedreiros, bombeiros, carpinteiros, eletricistas, serventes; 8) professoras de creche; 9) professores de ensino fundamental; 10) professores de ensino médio; 11) lavradores, vaqueiros, pescadores, colhedores, ensacadores; 12) manicures, pedicuras, cabeleireiros; 13) enfermeiros e técnicos de laboratório hospitalar; 14) garis, ascensoristas, faxineiros; 15) dentistas, cirurgiões, anestesistas; 16) batedores de carteira, descuidistas, ladrões de galinha; 17) Motoristas de ônibus, trocadores, mecânicos; 18) Tem mais? Tem. São infinitas as atividades que em que se ganha para suar. GRADAÇÕES Também posso dizer que são infinitas. Gostaria até de sugerir ao Departamento de Psicologia Social da Unesp, campus de Araras, que destacasse um grupo de especialistas em taras comportamentais para desenvolver o assunto. Exemplos: 1) Qual a diferença entre suor honorífico e suor degradantes? 2) Até onde os suadores sabem o valor de seu suor? 3) Qual é o valor mínimo para que o suor seja considerado honorífico? 4) Qual o valor máximo para que o suor seja considerado degradante? 5) Será politicamente (in) correto chamar suor degradante de degradante? 6) Quantos milhões de R$ gira anualmente o suor honorífico? 7) Tem mais? Tem. São infinitas as possibilidades dignas dessa pesquisa. DE SUAR MORREU UM BURRO Conta a lenda que um burro velho, carregado de lenha, trotava suando por uma estrada, seguido por verdadeira multidão de urubus. Intrigado, indagou: – Afinal de contas, por que vocês estão me seguindo há tanto tempo? – Por nada – respondeu o urubu líder, lambendo os beiços. – É só curiosidade.

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