Canção nos palcos de teatro

Levado pela música e inspirado pelos horrores da política, o compositor criou clássicos da dramaturgia brasileira

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

“Ópera do Malandro”. Dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa, a peça foi inspirada em Bertold Bretch e John Gray
acervo funarte / divulgação
“Ópera do Malandro”. Dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa, a peça foi inspirada em Bertold Bretch e John Gray

Dos 50 anos de uma profícua carreira em diversas expressões, Chico Buarque dedicou poucos à dramaturgia, mas bastou para marcar seu nome no teatro nacional. À opressão do regime militar, ele respondeu com peças que expunham o autoritarismo, mas iam muito além disso.

Durante a vigência do Ato Institucional 5, período mais brutal da ditadura, ele escreveu peças como “Calabar” (1973), “Gota d’Água” (1975), “Os Saltimbancos” (1977) e “Ópera do Malandro” (1978), mesmo sob a mira dos militares.

A música levou Chico até o mundo do teatro. O primeiro contato com a dramaturgia foi em 1965. Ainda estudante de arquitetura, apenas um ano depois de se lançar como compositor, ele musicou os versos de João Cabral de Melo Neto para a arrebatadora montagem de “Morte e Vida Severina”, no Teatro da Universidade Católica (Tuca).

Após o grande sucesso alcançado pela primeira peça, Chico escreveu “Roda Viva”, que marcou profundamente o cenário teatral da época – não exatamente pelo texto, mas sim pela forma como o diretor José Celso Martinez Corrêa conduziu a montagem. A grande polêmica causada pela peça colocou Chico na mira da censura.

“Grande parte do impacto da peça se deve às inclusões realizadas pelo diretor com o fim específico de provocar o público e chocar as mentalidades mais conservadoras. Por exemplo, numa cena muito típica dele, uma atriz representando Nossa Senhora aparecia em cena de biquíni, rebolando em frente a uma fálica câmera de televisão que se contraía e avançava”, lembra o professor Adriano Rabelo, que conduz a disciplina de estudos brasileiros na King’s College London.

Rabelo é autor de “A Melodia, a Palavra, a Dialética: O Teatro de Chico Buarque” (Linear B e Unicamp), livro baseado na dissertação de mestrado do pesquisador.

Por uma decisão do próprio Chico, “Roda Viva” nunca mais pode ser montada, por ser considerada por ele como um “desabafo juvenil”. “Todo autor tem o direito de retirar de sua futura obra completa as simples experiências da juventude. O teatro brasileiro não perde muito com essa postura. ‘Roda Viva’ é uma peça ingênua, escrita quando ele tinha apenas 23 anos, para exorcizar o estigma de bom moço. A peça tinha algo a dizer em 1968, quando a televisão começava a ganhar força no Brasil. Hoje, o escândalo já não mais existe”, avalia Rabelo.

Política. Nas obras para o teatro, Chico Buarque aprimorou o discurso de crítica social e de enfrentamento à ditadura, valendo-se de muitas parcerias, que foram fundamentais na sua produção dramatúrgica. “Sendo ainda bastante jovem quando escreveu suas peças, sem muita experiência como dramaturgo, Chico estabeleceu contato com experientes homens de cinema e teatro, como Ruy Guerra e Paulo Pontes”, pontua Rabelo.

Aproximando-se do teatro do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, Chico foi um representante do gênero épico, caracterizado por um teatro distanciado que, ao contrário de apelar para a emoção e identificação do público, buscava criar uma reflexão sobre um tema político-social. Mas não se resumia a ele. “Trata-se de uma obra multifacetada, com muitas vertentes. Difícil dizer o que mais define a produção de Chico Buarque como um todo”, comenta o professor.

Chico trouxe para os palcos uma característica rara para a época, mas que hoje é largamente explorada: a música. Muitos de seus maiores sucessos foram compostos originalmente para o teatro, como “Roda Viva”, “Gota d’Água”, “Folhetim”, “Geni e o Zepelim”.

Para a construção de seus textos, Chico usou muitas referências de outros autores, característica que, para Rabelo, remete à antropofagia tão presente na cultura brasileira. A partir dessas influências, que passam pela tragédia grega (“Gota D’Água”) e chegam até aos irmãos Grimm (“Os Saltimbancos”), ele cria algo novo e original, que conversa com o contexto político da época.

Perseguição. Por receber enorme atenção do público e da crítica, Chico era um constante alvo dos militares, ainda mais porque não fugia dos temas proibidos e encarava a ditadura. Naquele tempo, era muito difícil levar montagens teatrais ao público, por causa da implacável censura. “Os censores muitas vezes demonstravam total ignorância em relação às especificidades do texto teatral, sendo completamente despreparados para avaliá-lo”, diz Rabelo.

A peça “Calabar”, segundo o professor, exemplifica a arbitrariedade e incoerência da censura. Após a liberação do texto, um grande investimento foi feito pela produção do espetáculo, mas às vésperas da estreia, os censores notificaram que o texto seria reexaminado e demoraram indefinidamente para tomar a decisão. Somente em 1980, a peça foi ao palco.

O professor acredita que as peças de Chico Buarque sobreviveram bem à contemporaneidade e que as críticas continuam atuais. “O Brasil ainda não acertou as contas com a ditadura.. O autoritarismo de nossas relações sociais, a prática da tortura em nossas delegacias, as barreiras intransponíveis que nos impedem de mexer na estrutura de nossa sociedade – todas essas coisas estão nas peças de Chico Buarque. Elas só não são montadas frequentemente hoje em dia porque requerem grandes elencos e um custo elevado de produção”.

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