Das canções aos romances

De “Estorvo” (1991) a “Leite Derramado” (2009), artista conquistou seu lugar entre os escritores brasileiros

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Trajetória. Aclamado como um dos maiores nomes da música brasileira, Chico Buarque é celebrado também na literatura
directv/arquivo/6.10.2005
Trajetória. Aclamado como um dos maiores nomes da música brasileira, Chico Buarque é celebrado também na literatura

Chico Buarque já afirmou ter escrito suas primeiras canções aos 21 anos. Quando venceu o I Festival da Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record, com “A Banda”, aos 22, ficou claro que esse ofício ele cumpria bem. Foi então como compositor e letrista, na sequência como dramaturgo, que o autor conquistou espaço na cena artística.

Prestes a completar 70 anos, na próxima quinta-feira (19), ele cada vez mais solidifica sua presença também no ambiente da literatura, que começou em 1991, ao publicar “Estorvo”, seu romance de estreia. De lá para cá, vieram mais três, “Benjamim” (1995), “Budapeste” (2003) e “Leite Derramado” (2009). O primeiro levou o Jabuti de melhor romance em 1992 e os dois últimos arrebataram o mesmo prêmio, na categoria melhor livro do ano, indicando que esse campo de atuação não representaria apenas uma fase.

Em razão do último título, aliás, o escritor e crítico literário José Castello, há cinco anos, veio a público, em crônica publicada no jornal “O Globo”, defender que Chico não podia ser visto como um aventureiro nessa seara. “Chico não é só um músico de sucesso que faz literatura. Ele está entre os grandes narradores brasileiros contemporâneos”, frisou Castello.

Tal visão vem se consolidando aqui da mesma maneira que o escritor também alcança leitores em outras praças. A pesquisadora Ana Maria Clark Peres, recorda, por exemplo, no artigo “A França de Chico Buarque”, como o suplemento literário do jornal francês “Le Monde” e a revista daquele mesmo país “Le Nouvel Observateur”, após o lançamento lá de “Budapeste”, em 2005, o ressaltaram, respectivamente, como um dos “mais interessantes” autores brasileiros que chegava ali e “um dos melhores escritores sul-americanos contemporâneos”.

Se o grande reconhecimento de sua habilidade na música pode ter ajudado na difusão dos livros, para Ana Maria esse não é um fato relevante, pois desde “Construção”, avaliada por ela como uma das letras mais bem produzidas da história da MPB, Buarque revela manter o exímio cuidado com a escrita. “Ainda que Chico lide com gêneros diferentes, que pedem realizações distintas, ele nunca abandonou certos temas e, sobretudo, nunca deixou em segundo plano o rigor nas suas produções”, sublinha a pesquisadora.

Sem abandonar o segmento que primeiro lhe lançou, Buarque vem sustentando, assim, a criação literária em paralelo. Uma mudança de tom, pendendo para um retrato mais ambíguo de como os personagens percebem o mundo, no entanto, começa a aparecer nos livros de maneira até então pouco aparente em suas canções. O que se percebe em romances, como “Budapeste”.

“Ali não está mais em questão a busca de uma identidade nacional, como o jovem Chico sonhou no início de sua carreira de compositor, mas, sim, de uma identidade fraturada, na divisão constante, por exemplo, entre Brasil e Hungria que perpassa toda essa narrativa”, observa a estudiosa.

Temáticas. As cidades como palco de diversos tipos de encontros e fonte recorrente de memórias se impõem como um dos principais temas em sua literatura, desde “Estorvo”. Para Mariângela Paraízo, também pesquisadora da obra do artista, isso inaugura um olhar para o presente, abordando outros aspectos, como a globalização e a dificuldade de se viver nos centros urbanos.

“Esse é um tema que aparece em seus quatro romances e ele vem atrelado a uma questão política contemporânea, ou seja, a própria ocupação desses espaços. O mal-estar das pessoas nas cidades, a condição de isolamento e os embates com o corpo social se reflete nas narrativas sempre a partir desse registro conflituoso”, explica Mariângela Paraízo.

Nos romances, as cidades surgem, de acordo com ela, marcadas sobretudo pela contingência, e há pouca abertura para a utopia. “Os personagens lidam com o que têm. Não há muitas possibilidades de escolha”, diz.

Em relação a “Estorvo”, a estudiosa observa como o percurso do protagonista reflete essa inquietação pelo deslocamento constante, como se ele não encontrasse um local de repouso. “Já em ‘Leite Derramado’, Eulálio, um senhor idoso, está imóvel numa cama de hospital, e a cidade surge reconstruída por meio de suas memórias. O interessante é que se descortinam várias paisagens urbanas que se sobrepõe, a partir de uma lógica da destruição. Aparece, por exemplo, um edifício que vai sendo construído sobre um antigo chalé da praia ou um novo templo erguido sobre uma capela de outra antiga fazenda”, detalha Paraízo.

Nas telas

Quase todos os livros de Chico Buarque já foram adaptados para o cinema. O primeiro a inspirar um filme foi “Estorvo”, cujo roteiro e direção do título de mesmo nome, lançado em 2000, é de Ruy Guerra. Em 2004, Monique Gardenberg levou a história de “Benjamim” para as telas, e há cinco anos Walter Carvalho rodou “Budapeste”.

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