Nota dissonante na trajetória

Após polêmica das biografias, artista pediu desculpas e “tirou o time de campo” para evitar desgaste maior

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Entrevista. A foto emblemática divulgada pelo biógrafo prova o encontro entre Chico Buarque e Paulo César de Araújo, na casa do compositor carioca, na Gávea, em 1992
paulo césar de araújo/arquivo pessoal
Entrevista. A foto emblemática divulgada pelo biógrafo prova o encontro entre Chico Buarque e Paulo César de Araújo, na casa do compositor carioca, na Gávea, em 1992

De todos os apelidos que Chico Buarque ganhou na carreira – mauricinho, poeta alienado pelo lirismo, bossa-novista do violão atrasado, mero encantador de olhos de ardósia –, o compositor carioca só não esperava que marcassem em sua testa a estrela de “censor”. Justo ele – o craque em driblar e anular os chicotes da ditadura com metáforas, ironias e autor do histórico “Cálice” – pisou na bola aos olhos dos fãs e foi massacrado por críticas no ano passado, ao se alinhar a Paula Lavigne, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Roberto Carlos e outros bambas da MPB que encabeçaram o grupo Procure Saber, contrário à publicação de biografias não autorizadas.

Há muito tempo Chico se esquiva de declarações públicas, não recebe jornalistas em casa ou sequer atende entrevistas por telefone. Enfim, abdicou de falar sobre sua obra e a cultura brasileira como antes. Por algum motivo, ele resolveu quebrar o silêncio em 16 de outubro do ano passado, em pouco mais de quatro grandes parágrafos escritos para o artigo “Penso Eu”, publicado no jornal “O Globo”. No texto, Chico sai em defesa de Roberto Carlos ao dizer que nunca havia sido entrevistado pelo biógrafo Paulo César de Araújo (autor da polêmica biografia “Roberto Carlos em Detalhes”, publicada pela editora Planeta em 2 de dezembro de 2006, mas recolhida das livrarias uma semana por ação judicial movida pelo biografado).

Acontece que Chico foi traído pela memória. Pediu desculpas ao biógrafo poucos dias depois do ataque, ao refrescar as lembranças após a divulgação de um vídeo da entrevista de quatro horas que concedeu a Paulo César, em sua própria casa, na Gávea, em 1992. O pesquisador Wagner Homem, autor de “Chico Buarque – História de Canções”, diz que Chico não esperava a ojeriza do público sobre sua declaração e optou por voltar à reclusão habitual para matar a polêmica. “Ele tirou o time de campo, assumiu o erro, reformulou a opinião e preferiu se afastar do assunto. Como faz com sua obra hoje: evita comentar muita coisa porque o que ele fala tem tendência a causar escarcéu e produzir mitos sem embasamentos”, diz.

Do outro lado da moeda, o biógrafo Paulo César comunga da mesma discrição ao considerar que o desentendimento com Chico Buarque ganhou mais holofotes do que deveria e foi um “simples mal entendido” – ainda que o disse-não-disse tenha acirrado os ânimos da MPB no debate das biografias no Congresso, ao colocar a veracidade das informações do pesquisador à prova publicamente.

Mesmo assim, hoje Paulo César considera o assunto encerrado, sem mágoas ou ressentimentos pelo compositor carioca, de quem é fã assumido. “Eu desejo que o Chico componha bastante ainda, escreva livros e faça mais discos, continue produzindo para acalantar os seus fãs, como eu. Para mim, aquele desentendimento de disse-não-disse ficou esclarecido ano passado com os fatos”, atesta.

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