Ícone contra a ditadura, “ameno” para os censores

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Ironia. Chico na década de 60, com o grupo MPB4, zombava da ditadura militar com lirismo
ARQUIVO: AE
Ironia. Chico na década de 60, com o grupo MPB4, zombava da ditadura militar com lirismo

Apesar de ser considerado um ícone de combate à ditadura militar na MPB, Chico Buarque nunca chegou a entrar em um camburão, ser efetivamente preso ou obrigado a sair do país às pressas. Ele mesmo foge do rótulo de mártir ao considerar a música “Apesar de Você” sua única canção de protesto, deixando de fora “Cálice”, “Deus lhe Pague”, “Cordão”, e outras. Em 1992, após a abertura dos documentos do DOPS, a ficha nº 6.601 com o registro de Chico só continha um resumo com “amenidades” de sua obra, sem assimilar “nada grave”, segundo os censores da época.

A pesquisadora Maria Clara Wasserman, especialista em história da música pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, além de pesquisadora do Centro de Estudo João Gilberto, explica que Chico Buarque vinha de uma família importante e tinha muito prestígio na mídia na década de 70, quando suas letras começaram a bater mais no regime. “Ele se exilou por conta própria para fazer shows na Itália justamente quando a ditadura engrossava no Brasil. Nesse período, houve uma mudança do lirismo de suas letras, fruto de uma espécie de cansaço de ser um bom moço e precisar falar mais duramente”.

No disco “Chico Buarque Volume 4” (1970), gravado na Itália, o compositor apresenta letras como “Gente Humilde” e “Agora Falando Sério”, onde ele chega a dizer sobre sua insatisfação com a poesia que fazia: “a cantiga bonita que se acredita / que o mal espanta / dou um chute no lirismo”. Posteriormente também vieram “Apesar de Você”, em 1971, que rendeu a Chico um interrogatório de mais de 12 horas no DOPS. “A música passou pela censura, mas um jornal carioca publicou uma nota dizendo que o ‘você’ da canção era o general Médici. Chico disse aos censores que era sobre uma namorada mandona, mas não colou. Chico virou perseguido”, completa Maria Clara.

Em 1974, após o general Ernesto Geisel assumir o poder, “a cada duas músicas compostas por Chico, uma era censurada e ele não conseguia reunir canções para um novo disco”, conta Wagner Homem. A solução foi o compositor lançar o EP “Sinal Fechado”, em que interpretava outros compositores, entre eles, um certo Julinho da Adelaide. “O Julinho foi uma invenção do Chico para se livrar da censura, já que seu nome estava marcado. Deu até entrevista para o Mario Prata (jornalista) como se fosse o Julinho. Depois que os censores descobriram a mentira, passaram a exigir documento do compositor na hora de levar a música para ser aprovada pela ditadura”, completa Wagner Homem. (LS)

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