O artista que construiu uma obra plural sem concessões

Cantor e compositor que revolucionou a música brasileira com seus lirismos faz 70 anos

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Recluso. Chico Buarque comemora 70 anos neste mês e se mantém cada vez mais longe dos holofotes
Daryan Dornelles/Divulgação
Recluso. Chico Buarque comemora 70 anos neste mês e se mantém cada vez mais longe dos holofotes

Aos 8 anos, Francisco Buarque de Hollanda só se preocupava em marcar gols no tabuleiro de futebol de botão e ser o cowboy-herói montado em um cavalo de cabo de vassoura. Na adolescência, aos 17 anos, se divertia roubando carros e abandonando os veículos nas ruas de São Paulo até ser preso certa vez nas imediações do estádio Pacaembu. Era uma época em que seus olhos azuis ou verdes ardósia – a indefinição é eterna – não faziam tanto sucesso, assim como suas primeiras marchinhas de Carnaval tocadas ao violão pela irmã Miúcha mal eram notadas por familiares. Da infância de um garoto comum vindo de boa família carioca, em pouco mais de 10 anos o menino Chico se tornaria “unanimidade nacional” aos 22 anos, segundo a expressão cravada de Millôr Fernandes, após a apresentação da canção “A Banda”, no II Festival da Música Popular, em 1966. “Tem a história de que o Chico pediu ao Millôr para tirar os óculos, porque ele se recusava a dar um soco em um homem de óculos. Não sei se eles chegaram às vias de fato, mas o Chico ficou muito puto porque achava o termo que o resumia leviano, apesar de a música ter ganhado o Brasil e agradado até o general Costa e Silva”, diz o pesquisador Wagner Homem, autor do livro “Chico Buarque – Histórias de Canções”, e amigo do compositor desde 1989. O problema é que a partir desse rótulo, uma série de outros mitos envolveram a figura de Chico de tal forma na carreira que hoje é impossível para muita gente separar a versão eufórica do artista daquilo que sua história verdadeira conta, como o próprio Chico percebeu – “o problema é quando a versão é mais interessante que o fato, aí não adianta você querer desmentir”, disse em entrevista ao jornalista José Rezende Júnior, em 1999. Hoje, às vésperas de completar 70 anos no próximo dia 19 de junho, Chico Buarque continua cercado de mistérios para o imaginário da MPB: é o ícone da resistência à ditadura e símbolo onipotente de paixões avassaladoras atraídas pelos seus olhos bicolor e rimas sagazes, ao mesmo tempo em que virou polêmica no debate sobre biografias ao se aliar ao grupo Procure Saber, no ano passado. Mais uma vez ele está em Paris para comemorar o aniversário longe dos holofotes brasileiros, sem dar entrevistas, abdicando de ver a Copa do Mundo mesmo sendo um amante de futebol e fluminense apaixonado, como se a sua obra falasse por si só a essa altura do campeonato. Afinal, são 509 canções compostas em 50 anos de carreira, cerca de 930 regravações de suas músicas e mais de 150 participações em discos de outros artistas, além de ter a preferência de Nara Leão e Elis Regina. “A obra de Chico não pode ser dividida em momentos e muita gente o põe como mártir da ditadura, como se a obra dele fosse só isso. Mas ele trabalha de forma cíclica. Fala das paixões, da ditadura, do cotidiano do brasileiro, e de forma lírica, em toda a carreira. Nada é datado em Chico e é isso que o faz tão genial”, atesta um dos maiores parceiros do compositor, o músico Edu Lobo. Mesmo sendo um instrumentista mediano no início da carreira, segundo o maestro Luiz Cláudio Ramos, Chico Buarque soube explorar o que tinha de melhor: a poesia. Escreveu “Construção” com todos os versos terminados em palavras paroxítonas para narrar a morte de um operário, enganou a ditadura com um “Cálice” que passou batido, expurgou sentimentos femininos como se fosse do sexo oposto em “Mulheres de Atenas”. “Realmente ele não tocava tão bem violão, mas hoje em dia é outra coisa. Ele foi sempre tão bom letrista, que as encomendas pipocavam. Vinicius de Moraes chegou a sentir ciúme no fim da década de 60 só porque não tinha parcerias com o Chico ainda”, diz o maestro Luiz Cláudio, que é diretor musical dos shows do compositor carioca desde 1989. Por fim, Chico Buarque fez a Tropicália de Gil e Caetano entender que ele não era “compositor de músicas bonitinhas” – como diz a irmã de Chico Miúcha – só porque falava de amor enquanto o Brasil era cada vez mais subjugado à ditadura militar. “O Chico se recusou a participar da passeata contra a guitarra elétrica em 1967 porque ele não tinha nada contra mesmo. Aquilo enlouqueceu o Caetano (risos). Mas depois a rusga entre eles passou. Chico apareceu fazendo lirismo quando o pessoal da Tropicália achava que tinha que chutar a porta. E o Chico só queria escrever as coisas do seu jeito”, diz Miúcha. A genialidade de Chico Buarque foi percebida primeiro por um dos seus principais mentores, o maestro Antônio Carlos Jobim, ainda na década de 60. “Chico me contou que em uma das primeiras parceiras dos dois, ‘Retrato em Preto e Branco’ (1968), o Tom não mexeu em nada na sua letra porque queria incentivá-lo a escrever, e ele era muito tímido”, lembra o compositor Carlinhos Vergueiro. Apesar de compor algumas canções e ter se apresentado em alguns bares paulistanos no início da década de 60, a estreia de um dos maiores nomes da MPB no mundo fonográfico só aconteceu em 1965, com o seu primeiro compacto, que continha a canção “Pedro Pedreiro”, que revolucionou a música brasileira. O compositor Milton Nascimento atesta que a partir dessa música, Chico Buarque se desvencilhou da cadência da bossa nova e começou a emergir nas influências que o tornariam um compositor plural e capaz de conciliar um universo eclético de canções que abrigava críticas ao regime, sambistas, malandros e o seu eu-lírico feminino. “O Chico juntou a batida do João Gilberto, a urbanidade de Noel Rosa, a poesia de Vinicius de Moraes, pitadas de jazz de Tom Jobim. Foi uma revolução. Chico Buarque é completo, chuta com as duas, bate falta, marca, cobra escanteio e ainda cabeceia”, analisa Bituca.

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