Atuação de um novo ângulo

Ator conta que passou semanas “vivendo” em uma cadeira de rodas para se preparar para seu personagem

iG Minas Gerais | anna bittencourt |

Experiência. Bruno afirma que, durante sua preparação, percebeu o quanto somos ignorantes em relação aos deficientes
Jorge Rodrigues Jorge/CZN
Experiência. Bruno afirma que, durante sua preparação, percebeu o quanto somos ignorantes em relação aos deficientes

Protagonizar uma novela é motivo de entusiasmo e orgulho para muitos atores. Bruno Ferrari, no entanto, já passou dessa fase. No ar como o dúbio Artur, de “Vitória”, o ator usa de seu jeito blasé e introspectivo na hora de defender seus personagens. Acostumado com papéis de destaque desde que saiu da Globo e assinou contrato com a Record, em 2006, Bruno opta por uma forma minimalista de construir os tipos para os quais é escalado. Nem o fato de interpretar um cadeirante anti-herói – na trama de Cristianne Fridman, Artur sofreu um acidente andando a cavalo quando tinha 12 anos e perdeu o movimento das pernas – chega a empolgá-lo. “Não vejo diferença em atuar em pé ou sentado. Já estou nesse processo há um bom tempo, já me acostumei”, revela ele, que contou com a ajuda de uma fisioterapeuta para aprender a manejar uma cadeira de rodas. “Fiquei quase dois meses usando a cadeira, tanto em casa como na rua. Vivi como se eu precisasse dela mesmo. A intenção é que a cadeira não seja um personagem, que as pessoas consigam ver o Artur sem enxergar ela primeiro”, define.

Natural de Catanduva, em São Paulo, Bruno começou a se interessar pelas artes dramáticas quase sem querer. Em 2001, o ator se matriculou em um curso de teatro para se livrar de uma inibição que ele garante carregar durante os 32 anos de sua vida. “Atuar é uma terapia. Acho que todo mundo deveria fazer, pelo menos, seis meses de teatro na vida”, opina.    Artur é um anti-herói. Como você buscou a construção desse personagem? Acredito que esses personagens mais dúbios sejam os mais difíceis de construir. Quando li os primeiros capítulos, disse para a Cristianne Fridman que ele poderia se tornar um vilão. Ela me disse para ter calma. Quando recebi as páginas seguintes, vi que tudo tinha uma explicação. O legal dessa novela é que não existe estereótipo. Não tem vilão ou mocinha. As pessoas têm lados bons e ruins, como é comum na vida. Então, a construção é diária, é baseada nas informações e emoções que vêm no texto.    Você acredita que as motivações dele são compreensíveis? É uma trama que fala de amor. Ele quer se vingar do pai, mas não é porque o odeia e sim porque o ama. Artur sofreu esse acidente de cavalo quando tinha 12 anos e o pai o abandonou. Muito também pela culpa que sentiu, de ter dado um cavalo e deixado ele montar sem supervisão. Artur quer achar uma recompensa para todos esses anos que viveu sem a pessoa que mais gostava. Para todas as ações dele, existe uma justificativa.    Como foi a preparação para viver um personagem que tem limitações físicas? Tive ajuda de uma fisioterapeuta especialista em pessoas cadeirantes. Fiquei cerca de dois meses recebendo ajuda, conselho e auxílio dela. Ela me ajudou muito na questão de aprender os limites do que eu poderia ou não fazer. Além disso, aprendi a me locomover, a trocar de roupa, a me virar mesmo. Nesse tempo, usava a cadeira em casa e na rua. E também perdi sete quilos para ficar mais leve na cadeira e poder ser mais ágil.   E o que você achou dessa experiência? Foi incrível. Acho muito importante a ideia de ter um protagonista cadeirante.     Por quê? É bom para mostrar o quanto a gente é ignorante. Inclusive, eu. Não tinha ideia do que um cadeirante pode ou não fazer. Dependendo da lesão, dá para viver uma vida normal, como é o caso do Artur. Ter filhos e tudo. Vi também que no Rio de Janeiro, mais precisamente o bairro de Copacabana, que foi por onde eu transitei, é muito difícil ter algum tipo de deficiência. As ruas não estão preparadas. Algumas voltas no quarteirão e eu já ficava com o braço dolorido. Além disso, tem o olhar. Muda completamente a forma como as pessoas olham para você. Existe uma pena, uma piedade. Isso é muito doloroso. Por isso que procurei trabalhar nele de uma forma leve, ir além da deficiência.

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