Juiz ‘advogava’ para traficantes

Além de decidir em favor de criminosos, magistrado de Juiz de Fora era diretor jurídico da quadrilha

iG Minas Gerais | Bárbara Ferreira |

Sessão. Desembargadores decidiram ontem que Amaury de Lima e Souza (no detalhe) ficará preso pelo menos até seu julgamento
DENILTON DIAS/ O TEMPO
Sessão. Desembargadores decidiram ontem que Amaury de Lima e Souza (no detalhe) ficará preso pelo menos até seu julgamento

O juiz da Vara de Execuções Criminais de Juiz de Fora, na Zona da Mata, Amaury de Lima e Souza teve sua prisão preventiva decretada na tarde dessa sexta, durante uma sessão extraordinária do Órgão Especial do Tribunal de Justiça de Minas Geras (TJMG). A justificativa dos desembargadores para negar o pedido de relaxamento de prisão feito pela defesa é a participação do magistrado em uma quadrilha de tráfico internacional de drogas desmembrada durante a Operação Athos, na última terça-feira.

Um dos delegados envolvidos na operação confirmou à reportagem de O TEMPO que Souza era um dos integrantes do grupo criminoso e que, além de usar sua influência para beneficiar os criminosos, como divulgado anteriormente, coordenava a parte jurídica do esquema.

A relatora da sessão foi a desembargadora Márcia Milanez, que além do flagrante de porte ilegal de armas, analisou todo o contexto da investigação feita pela Polícia Federal. Ela entendeu ser imprescindível a manutenção do magistrado preso.

Na sessão, ela alegou que o juiz tinha relação direta com traficantes de drogas e citou um vídeo feito pela polícia no qual ele recebe uma sacola de dinheiro da advogada Andrea Elizabeth Leão Rodrigues, também presa durante a Athos. A suspeita é que ele tenha usado esse dinheiro para comprar um Chevrolet Camaro e um apartamento de luxo. Os bens foram adquiridos poucos dias depois do encontro.

A desembargadora alegou ainda que ele pode ter influência direta sob testemunhas e chamou a atenção para a possibilidade de uma tentativa de eliminação de provas e de fuga.

Amaury de Lima e Souza está detido no 39º batalhão da Polícia Militar, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde, de acordo com informações do TJMG, ficará por tempo indeterminado. Participaram da sessão 25 desembargadores, mas 20 votaram. Os cinco que compõem a direção não votam. Todos foram favoráveis ao parecer da relatora – o magistrado fica detido até o fim das investigações e o julgamento.

Investigação. As investigações que desencadearam a operação Athos começaram há seis meses, mas, de acordo com informações da Polícia Federal, o nome do magistrado surgiu ao longo do processo. Um dos delegados contou que o nome dele consta como membro do grupo criminoso há cerca de três meses. A partir disso, ele passou a ser monitorado e sua relação com a advogada é uma das principais provas de ligação com a quadrilha.

Ele foi detido na última quarta-feira, em Juiz de Fora. Além da participação no esquema, ele é suspeito de porte ilegal de armas.

Afastado

Perfil. Amaury Souza virou juiz em 1990, passou pelas cidades de Mercês, Teófilo Otoni, Mar de Espanha, Águas Formosas e, em 2003, foi para Juiz de Fora, onde ficou até terça-feira.

Relembre o caso

Athos. Deflagrada na última terça-feira pela Polícia Federal (PF) em Minas, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, a operação Athos desmembrou uma quadrilha de tráfico internacional de drogas e de lavagem de dinheiro que faturava cerca de R$ 20 milhões por mês. As drogas eram trazidas da Bolívia para Juiz de Fora, na Zona da Mata, e distribuídas pelo Brasil. Nome. Segundo a PF, o grupo contava com uma rede de tráfico de influência, e os suspeitos viviam vida considerada luxo, sem medo de ser presos. Daí o nome da operação, uma referência ao deus grego conhecido por nada temer. Prisões. Foram detidas 19 pessoas, dentre elas a advogada Andrea Elizabeth Leão Rodrigues, que fazia a ligação do juiz Amaury Souza com outros presos na operação, também preso. Na casa dele, havia várias armas, inclusive de uso restrito das forças policiais Luxo. Foram apreendidos 32 carros, 11 imóveis, sete aviões, seis lanchas e uma moto aquática, avaliados em cerca de R$ 70 milhões. Também foram apreendidos 600 kg de cocaína e quase duas toneladas de maconha.

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