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Orquestra Ouro Preto comemora 10 anos de dois projetos sociais que democratizam a música erudita na região

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Espetáculo. As apresentações da Orquestra Ouro Preto acontecem nas igrejas dos distritos
VINÍCIUS TERROR / DIVULGAÇÃO
Espetáculo. As apresentações da Orquestra Ouro Preto acontecem nas igrejas dos distritos

Moradores dos 12 distritos e de bairros mais afastados de Ouro Preto têm programação certa todo julho. Nesse mês acontecem os concertos de música clássica instrumental gratuitos, integrantes dos projetos Orquestra nos Bairros e Orquestra nos Distritos. Produzidos pela orquestra de mesmo nome da cidade, os programas promovem recitais artístico-pedagógicos há dez anos, como forma de democratizar o acesso à expressão artística. “Nossa ideia sempre foi a de levar música para onde estavam as pessoas que não tinham acesso aos concertos e, assim, descentralizar as apresentações do grupo para onde o povo está”, comenta o maestro Rodrigo Toffolo.

A intenção de difundir a música erudita, no entanto, não significava impor uma estética musical aos ouvintes que, em sua maioria, não eram familiarizados com concertos. Por isso, foram realizadas pesquisas prévias que direcionaram a concepção dos espetáculos.

“Fomos até as cidades e perguntamos o que as pessoas esperavam da orquestra, pois queríamos que elas sentissem que estavam recebendo o projeto e não que vissem apenas um orquestra chegar no distrito. Essa abordagem é inovadora em programas desse segmento e isso contribuiu muito para que as pessoas abraçassem a iniciativa”, diz o maestro, ao afirmar que já fizeram concertos tanto de música barroca europeia quanto outros inspirados em músicas dos Beatles.

Outro fruto da pesquisa foi o escopo educacional sob o qual as apresentações foram moldadas. Para aproximar os moradores, segundo Toffolo, seria importante ensinar um pouco sobre aquele novo mundo. Daí surgiu o “concerto-aula”. “Nas primeiras visitas explicamos como é o funcionamento de uma orquestra, apresentamos os instrumentos e até mesmo a diferença de sons que cada um produz. Como espectadores, eles vão aprimorando seus conhecimentos como se fossem alunos”, diz.

Presente em todas as apresentações que a orquestra fez no distrito Glaura, a aposentada Ailza da Silva, 68, diz que sempre fecha os olhos para desfrutar a sensação de paz proveniente dos recitais, além de afirmar que as apresentações despertam o interesse dos jovens pela música. “As crianças pequenas gostam muito, mesmo sem entender o que se passa. Já os maiorzinhos, com uns 12 anos, entendem e muitos buscam aprender a tocar um instrumento, mas a maioria, infelizmente, não tem condições financeiras para isso”, afirma.

Nova fase. Ciente de situações como essa e com a vontade de dar novas formas ao projeto, a Orquestra Ouro Preto inaugura, em agosto, uma escola para crianças com cerca de 10 anos, em que eles estudarão música e aprenderão a tocar um instrumento gratuitamente. “Nosso desejo é de formar a Orquestra Jovem de Ouro Preto”, afirma Toffolo.

Ao falar do novo projeto, o maestro faz questão de ressaltar que é uma responsabilidade muito grande abrir uma escola, pois envolve o sonho de muitas crianças. “Imagina se chamo um aluno em agosto e em dezembro já tomo o instrumento dele dizendo que não iremos continuar por falta de dinheiro”, afirma Toffolo, que só apostou no projeto graças a parcerias sólidas com as empresas patrocinadoras: Petrobras, Gerdau, Gasmig e a Prefeitura Municipal de Ouro Preto.

Um segundo desdobramento dos projetos são as parcerias a serem realizadas com bandas locais existentes na maioria dos distritos. “A partir do segundo semestre, vamos levar profissionais da orquestra para trabalhar com integrantes dessas bandas fazendo workshops de aprimoramento”, adianta Toffolo.

Embora demonstre perfeita confiança nos projetos que administra, Toffolo acredita que eles são apenas o início do círculo da fruição da arte. Fato que torna a continuidade ainda mais importante. “Por envolver educação, nossos projetos acabam levando conhecimento que desperta também a abertura para experimentar outras manifestações artísticas. Há casos de pessoas que tinham 15 anos quando assistiram à nossa apresentação e, hoje com 25, são jovens que desfrutam de espetáculos de dança, vão a museus e exposições”, conclui o maestro.

Pedagogia Neste ano, a Orquestra Ouro Preto lançou um livreto didático para aproximar crianças entre 5 e 10 anos do cenário erudito.

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