Linguagem kitsch para discutir gêneros

Madame Teatro usa elementos da cultura pop

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Discussão de gênero passa por uma fábula bem-humorada, mas se aprofunda pela densidade do tema
GUTO MUNIZ DIVULGACAO
Discussão de gênero passa por uma fábula bem-humorada, mas se aprofunda pela densidade do tema

O conceito kitsch diz respeito a uma profusão de estímulos visuais que beiram à poluição. A avalanche de elementos e cores (muitos em tom néon) fazem menção ao supérfluo e flertam diretamente com a cultura pop e os tempos de reprodutibilidade técnica da indústria cultural e seus excessos. 

A última parte da trilogia Pop, “Bata-me (Popwitch)”, do Grupo Madame Teatro, volta ao cartaz, a partir de hoje, no espaço CentoeQuatro e é justamente uma tentativa de se fazer um espetáculo de teatro kitsch.  “Kitsch tem haver com o excesso, né?”, indaga o diretor do espetáculo Diego Bagagal. “Acho que nosso cenário já é bastante, mas acho que ainda não consegui fazer um espetáculo que fosse estritamente kitsch. Embora, eu tenha esvaziado ao máximo e deixado tudo na superfície, a peça ainda guarda um tom político forte”, revela Bagagal.  Não seria para menos, em sua dramaturgia de sobreposições de camadas – que lembra Andy Warhol –, há discursos de figuras notoriamente politizadas. Uma delas, Martin Luther King Jr. e seu emblemático discurso “I Have a Dream” (“Eu Tenho um Sonho”) proferido para uma multidão em Washington, no auge das discussões de preconceito racial, em 1968.  Outro recurso utilizado por Bagagal – que também assina a dramaturgia e a concepção da peça – na construção de seu trabalho foi evocar elementos que fazem parte do imaginário coletivo daqueles que eram crianças nos anos 1980.  “Temos um He-man em cena. Você deve pensar: ‘é um desperdício um ator vestido de He-man o tempo todo em cena’, mas não! Ele está ali justamente porque remete a essa infância de todos nós. Quem não teve um boneco do He-man quando era menino?”, pergunta o diretor.  TEMÁTICA Leve? “Bata-me (Popwitch?)” narra a história de uma transbruxa mineira (Popwitch) residente ilegal na Europa que é espancada pelo Príncipe Encantado português, funcionário da Eurodisney em crise e fascinado por chinelos de borracha brasileiros. As câmeras de segurança do parque temático filmam e crucificam Popwitch. Embriagada pelas palmadas de seu espancamento, ela se apaixona e reivindica, mesmo crucificada, seu direito a um happy end. O breve compêndio acima pode dar a impressão de que o espetáculo do Madame Teatro traz um olhar ingênuo, quase romantizado, passando longe da discussão que existe em torno dos transexuais (e os preconceitos sofridos por eles). Mas engana-se quem pensa assim. “Essa leveza não é uma escolha alienante, pelo contrário, é uma busca minha por essa leveza irônica da cultura pop. Quem tiver olhos clínicos, verá que estamos falando de coisas ‘darks’. É como uma Coca-Cola Light – que tem menos calorias, mas provoca muitos casos de câncer”, brinca Bagagal. A peça foi selecionada pelo Ministério da Cultura como vitrine para os visitantes estrangeiros durante a Copa do Mundo. A Copa gera uma série de reações diversas por parte dos artistas e ativistas da cidade. A maioria delas desfavorável e de repúdio a tudo que envolve o Mundial e seus gastos acima do previsto.  “Eu não falo de político porque eu não entendo, mas acredito que o nosso (dos artistas) fazer está em outro lugar. A arte tem esse lugar de transformação. E, francamente, eu acho incrível estar ‘na Copa’, é a oportunidade de fazer o espetáculo para um público diferente. Não adianta nada restringir essa discussão (dos transexuais) apenas para quem vive esse universo” Serviço. “Bata-me (Popwitch)”. Hoje, amanhã e domingmo às 20h, no CentroeQuatro (praça Rui Barbosa, 104, centro). Ingressos: R$ 5 (preço único) 

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