Saudade de Londres bateu em Januária

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Bateu saudade de Londres, com seu frio úmido que a muitos irrita. De fato, chega a doer, em janeiro, quando sopra o vento no embankment, que é o nome dado pelos ingleses à beirada do Tâmisa. Mas é uma dor de cura mais fácil que a saudade. Os franceses chamam esse aterro, essa plataforma que margeia o rio de quai. E aqui no norte de Minas, fala-se nas barrancas do Velho Chico. Os políticos dizem orgulhosos que são barranqueiros, gente temperada pela dureza da vida. A maioria mente, pois é filha da elite secular. Curioso sentir agora, poucos meses depois, a canícula, o calor extremo, propagando-se em ondas trêmulas na beira da água. O ar se move e hipnotiza. Prefiro o frio, que firma o passo, abre o apetite, aumenta a gana de pensar, caminhar, trabalhar. O calor me entorpece e o refúgio do ar-condicionado é providencial para atualizar o correio eletrônico e escrever este artigo para o jornal. Almocei no Pimenta Mineira, um restaurante aberto na casa de uma família januarense. Lugar simpático, tempero caseiro, comida bem feita. O proprietário mostra a pimenta mineira... mas diz que boa mesmo é a chilena, que ele preparou em um molho concentrado. São muitos mundos e é preciso extrair de todos seu sumo precioso. A gente só devia estar onde está. Aprendi isso na meditação budista, but such stupid and stubborn mind... a mente é teimosa e os portugueses, meus ancestrais, me legaram essa tal saudade. E hoje à noite eu quero atravessar a rua e pegar o underground de teto baixo, verdadeiro tube, e caminhar esbaforido para não perder o teatro no Soho. Mas depois quero me perder nas ruas de Chinatown, com seus frangos pendurados diante dos restaurantes, suas bandeirolas, sua sopa de wonton perfumada, que nos aconchega e prepara para desafiar o frio na volta para o apartamento, lá longe, nas bandas de Lambeth Palace, perto da casa do arcebispo de Cantuária. Pensando bem, nada de comida chinesa. Hoje quero comida indiana, o tandoori da Kennington Road 313, nessa margem sul do Tâmisa, pouco explorada pelos turistas, ou no Chilli Shaker, numa viela curta de Piccadilly, a Denman Street, 4. Eita, como é bom ser cidadão do mundo!

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