Bardo do Bar: Istambul

iG Minas Gerais |

acir galvao
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O Istambul já estava cheio àquela altura, com “Venus in Furs” tocando alto no som, por isso Dante e Perseu conversavam aos gritos, gesticulando muito, efusivamente, como costuma ficar boa parte da clientela do bar na alta madrugada. “Não se trata desta Copa do Mundo, aliás, não se trata de Copa do Mundo nenhuma, e sim de futebol”, argumentava Perseu. “Um olhar menos estreito vai revelar a verdadeira beleza do futebol, a maneira como ele se relaciona com praticamente todas as esferas da vida, como tem a ver com sociedade, cultura, história, comportamento, entretenimento, dança, estratégia, economia, política, tudo”, seguia dizendo, quando foi interrompido por Dante. “Mas convenhamos que a economia e a política que o futebol expressa não são lá muito dignas de consideração, não são exemplo de muita coisa, quer dizer, a gente sabe dos milhões, quiçá bilhões que o futebol faz circular, mas também sabe que o grau de concentração desse dinheiro é infame. Jogadores de pequenos times, que, diga-se, são a maioria absoluta, não ganham nem pro almoço. E claro, isso está diretamente relacionado com a instância política que está por trás do futebol profissional”, defendia seu ponto de vista o Dante. “Também não acho que a economia e a política relacionadas ao futebol sejam exemplo de nada, pelo contrário, acho mais que são reflexos do mundo como ele é hoje. Desigualdade, desmandos, corrupção, propina, favorecimentos, negociatas, não é exatamente assim no mundo que corre à parte do futebol? A questão é que, em nenhum outro lugar tanto quanto dentro das quatro linhas essa possível feiura, que não é exclusiva do futebol, está tão fortemente amalgamada, por exemplo, com o desfrute estético oferecido pela coreografia que é um lance bem tramado, com a plasticidade de um belo drible, um chapéu, um gol de bicicleta, com o sangue, o suor e as lágrimas dignos de uma grande epopeia que eclodem num jogo decisivo”, exaltava-se Perseu. “Não nego que seja um espetáculo visual que pode eventualmente tocar fundo na emoção, mas, sei lá, acho que sou mais racional, pragmático, então me fica o sentimento de que a sujeira que todos sabemos existir nos bastidores desse espetáculo rouba-lhe a beleza”, rebatia Dante, tentando equilibrar a eloquência do discurso com um ar ligeiramente melancólico. Perseu avançava defendendo sua adesão, tentando achar brechas na retranca de seu interlocutor: “Mas essa impureza, essa complexidade e essa, por que não dizer, avacalhação do futebol também fazem parte da graça dele. É imperfeito como a vida. E imponderável. Contra toda eficiência, contra toda estratégia, contra todo o talento, a politicagem, os prognósticos, as condições climáticas, a tecnologia, o favoritismo, a lógica, enfim, contra tudo de programável ou previsível, é sempre o acaso que dará o acorde final”, ia dizendo, quando Dante pontuou: “Pois é, mas, como disse, sou racional e pragmático, então não gosto muito do acaso”. E Perseu seguia: “E tem mais, tudo no futebol, pensando no curso de sua história, muda muito, como muda o mundo. Olha, reitero o convite para assistir o jogo da semana que vem lá em casa. Deixa essa rabugice de lado, compra umas cervejas e vê se aparece”.

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