O esporte como narrativa e dramaturgia

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |


Pelé aparece em “Fuga para a Vitória”, dirigido por John Huston
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Pelé aparece em “Fuga para a Vitória”, dirigido por John Huston

Quando pensou em uma mostra para o período do Copa do Mundo, mas que mantivesse o perfil da sala Humberto Mauro, o curador Rafael Ciccarini tinha um princípio em mente. “O esporte e o jogo têm uma dramaturgia interna. Queria encontrar filmes que encenassem isso no cinema de formas histórica e esteticamente interessantes”, explica Ciccarini.

O resultado é “Estéticas do Jogo”, que começa hoje e exibe 15 longas, de obras mudas a ficção e documentários, até o dia 27 de junho. “O esporte carrega em si uma narrativa. ‘Tal time não ganha do outro há cinco anos’. ‘Esse é o primeiro jogo em tal lugar’. É um microcosmo de dramaturgia. Quando o encontro disso com o cinema é bem feito, é algo muito rico e encerra muitas possibilidades internas”, argumenta o curador.

Uma das primeiras decisões tomadas na formatação da mostra foi expandir o espectro da curadoria não só para outros esportes além do futebol, mas também para o jogo – como o xadrez, no longa “Computer Chess”, de 2013. “Kant considerava o jogo uma das poucas atividades ‘puras’ da sociedade, por acompanhar o ser humano durante toda sua vida, mas não estar atrelada a uma necessidade de sobrevivência”, lembra.

Outro motivo para a expansão é que, como ressalta Ciccarini, o cinema e o futebol ainda não tiveram seu ‘grande encontro’. Segundo ele, a ausência de bons filmes sobre o esporte bretão não é sintomática apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Uma das razões que ele cogita para isso é que a própria televisão já atingiu uma qualidade dramatúrgica muito significativa na transmissão do futebol.

“Perguntei outro dia para o Kléber Mendonça Filho como ele filmaria uma partida de futebol de forma cinematograficamente interessante. Ele ficou pensando e disse que botaria 20 câmeras no campo, que é o que a televisão já faz”, conta Ciccarini. Ainda assim, a mostra traz alguns exemplares do gênero, como o documentário nacional “Garrincha – Alegria do Povo”, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade em 1962, e “Fuga para a Vitória”, de 1981, em que o diretor John Huston conta a história de uma partida de futebol durante a Segunda Guerra, com a participação do rei Pelé.

Do outro lado da moeda, a coreografia e mise-en-scène mais claramente decupáveis fizeram do boxe um dos esportes mais abordados na telona. Ao contrário do que acontece com o futebol, quando Martin Scorsese filma uma luta com a câmera dentro do ringue em “Touro Indomável”, provoca uma revolução no olhar do público. “A beleza da arte e da estratégia dos lutadores em contraste com a selvageria violenta da luta é um retrato do paradoxo poético e animalesco do homem. Dava para fazer uma mostra só com filmes de boxe”, considera o curador.

Além do futebol e do boxe, “Estéticas do Jogo” ainda traz longas sobre rúgbi, automobilismo e sinuca. O recorte histórico vai de filmes mudos de Buster Keaton e Harry Lloyd, passando por obras do “Free Cinema” inglês dos anos 1960, como “A Solidão de uma Corrida sem Fim” de Tony Richardson, até o “Ali”, dirigido por Michael Mann em 2001, completando um panorama de 100 anos do cinema. Uma seleção imperdível para quem quer não só futebol – quer futebol, diversão e arte.

Agenda

O que. Mostra ‘Estéticas do Jogo’

Quando. De hoje a 27 de junho

Onde. Cine Humberto Mauro – avenida Afonso Pena, 1.537, centro

Programação completa. www.fcs.mg.gov.br

Quanto. Entrada franca

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