Disputa de sabores

Em clima de Copa do Mundo, chefs criam pratos e petiscos inspirados nas culturas de países que vêm a Belo Horizonte jogar as partidas da primeira fase da competição

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

O molho grego do sanduíche de Carlos Bruno leva iogurte e mel
GUSTAVO BAXTER
O molho grego do sanduíche de Carlos Bruno leva iogurte e mel

Expressões ligadas tanto ao prazer quanto à técnica, o futebol e a gastronomia são representantes de seus povos ao redor do globo. Se o turista que vem ao Brasil para curtir a Copa do Mundo vai poder aproveitar nossa rica culinária, por que não fazer o mesmo e tentar conhecer um pouco de quem vem nos visitar? Começa hoje uma série que vai apresentar pratos inspirados nos oito países que jogarão em Belo Horizonte na primeira fase da competição.

Na falta de chefs nativos de todos esses países na cidade, o Gastrô convidou cozinheiros locais para o desafio. Cada um deles assumiu a tarefa de representar um jogo. Os dois primeiros serão Colômbia x Grécia, que se enfrentam amanhã no Mineirão, e Bélgica x Argélia, que entram em campo no próximo dia 17. Na semana que vem, serão publicadas as receitas de Argentina x Irã e Costa Rica x Inglaterra. A ideia foi apresentar pratos ou petiscos para apreciar durante os jogos. Dá até para fazer uma brincadeira com a família ou amigos: na disputa de paladares, qual prato vence o jogo?

Colômbia x Grécia. Para a primeira partida, o convidado foi o chef Carlos Bruno, do restaurante O Conde. Entusiasta da região do Mediterrâneo, ele teve mais facilidade para pensar no prato inspirado na Grécia do que na nossa vizinha Colômbia. “Isso é curioso, estamos aqui tão próximos e não conhecemos muitos costumes e pratos da América Latina. Mais recentemente, descobrimos a Argentina e o Peru, mas ainda assim não temos tanto contato. Por estarmos aqui do lado, devíamos ter mais intimidade com esses países”, afirma o chef.

Como não conhecia a culinária colombiana, Bruno foi pesquisar – e diz que gostou do que encontrou. “As influências indígenas e espanholas são muito presentes, sempre misturadas. E me deparei com duas Colômbias completamente diferentes. Uma é do Caribe, com praias maravilhosas, frutos do mar. Outra, a dos centros urbanos, em que a gastronomia é bem desenvolvida. Fiquei interessado em conhecer os restaurantes de Bogotá que, pelo que li, são muito bons, de nível internacional”, diz.

Para a disputa, ele buscou uma referência já conhecida dos brasileiros, por ser também presente na culinária da Argentina: as empanadas. No recheio, maçã do peito ensopada, uma carne não-nobre muito usada pelo povo colombiano, segundo ele. Para completar, molho de ají amarelo, a pimenta dos povos andinos.

Mais confortável foi encarar as ervas frescas, o azeite, o cordeiro, que caracterizam a dieta mediterrânea, que sempre encantou Carlos Bruno. Não à toa, ele se especializou na gastronomia do Sul da Itália. Ao longo da história, a intensa interação entre Grécia e Itália fez com que estes países se influenciassem mutuamente e, por isso, produtos e costumes são compartilhados. O prato criado para o desafio, de preparo mais fácil, reúne alguns desses ingredientes, mas também outros muito próprios dos gregos, de associação imediata à cultura helênica, como o iogurte natural e o mel. Para completar, hortelã fresca e pão pita, um legado árabe na região.

“Neste prato, usei um lombo de cordeiro defumado e o recheio com o iogurte fica bem cremoso. Acho que é uma mistura que agrada muito ao paladar do brasileiro. Não chega a ser um prato exótico, tem sabores já conhecidos e explorados, o que facilita a aceitação”, completa o chef.

Argélia x Bélgica. Representante da segunda geração à frente do restaurante mineiro Casa Cheia, Ilmar de Jesus recebeu o desafio de ir bem além das fronteiras do Estado, no jogo entre Argélia e Bélgica. Ele é um viajante contumaz e não teve dificuldade de visitar a culinária belga, porque já esteve por lá e atesta: nem só de cerveja e chocolate vive o país. À essa combinação onipresente na cultura do país, deve ser inserido um terceiro elemento fundamental, a batata, especialmente consumida frita.

Banhado pelo Mar do Norte, o país consome muito frutos do mar, e agrada particularmente ao belga o sabor dos mexilhões. Pela combinação dessas paixões, surgiu um prato muito famoso por lá, mas que pode soar estranho a ouvidos brasileiros, o moules frites, de mexilhões com batatas fritas. Inspirado nesse sabor, Ilmar pensou em uma receita de peixe com batatas e frutos do mar, regado por um molho de cerveja preta.

“A Bélgica fica meio espremida entre a França e a Alemanha, então, tanto no prato, quanto na cultura em geral, é possível notar essa influência. Tudo lá tem um pouquinho de francês ou de alemão”, diz o chef.

No desafio, a grande surpresa para Ilmar foi a Argélia, país absolutamente exótico para ele. Antes de criar o prato, ele pesquisou muito a história, os costumes e, claro, as receitas nativas. Localizado no Norte da África, o país tem três grandes influências. A primeira são os frutos do mar do Mediterrâneo, especialmente nas regiões costeiras; a segunda, a cultura árabe; a terceira, povos berberes e tribais.

Bem temperada, a culinária típica argelina é rica em aromas, cores e texturas. Por lá, consomem-se muitas especiarias e ervas, carneiro, grão-de-bico, fava e trigo. Entre os legumes, são muito apreciados a abobrinha e o pimentão. “É uma cozinha muito variada, despertou minha curiosidade. Na próxima viagem, vou dar um jeito de incluir a Argélia no roteiro. Adoro conhecer pratos típicos, visitar mercados, descobrir ingredientes”, disse.

Pensando em tamanha mistura, ele criou um ensopado de cordeiro com legumes, temperado com coentro, açafrão e gengibre laminado. “Tinha uma imagem completamente errada da Argélia. Quando pensamos em países africanos, é difícil imaginar tanta riqueza e variedade de produtos”, comenta o chef Ilmar de Jesus.

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