“Jeitinho” na Copa no Brasil

iG Minas Gerais |

É hoje! Todos os olhos estarão voltados para a Copa do Mundo no Brasil. Por 31 dias, principalmente se a seleção chegar à final, o país para. Não se discute nada a sério, ficará para depois dos jogos, quando chegará o período de campanha eleitoral e todos vão se lembrar do Mundial. Será o momento da troca de acusações por obras que não foram concluídas para o evento. É o teste de DNA de filho feio. Ninguém quer assumir a paternidade. Nem precisa. Atribuir a responsabilidade da não realização de obras ao governante A, B ou C pode não ser justo. Claro que uns têm mais “culpa no cartório” do que outros, mas a responsabilidade é de todos, inclusive daqueles que não executam o Orçamento, mas deveriam fiscalizá-lo. Na hora de visitar as obras, tirar foto e postar no Facebook à espera da curtida do assessor, vários o fizeram. Cobrar depois do parto, quer dizer, da Copa em funcionamento, dá preguiça. Por que não se mobilizaram para que não houvesse atrasos? Em janeiro de 2010, pouco mais de dois anos depois da escolha do Brasil como país-sede, foi definida a Matriz de Responsabilidades – documento assinado pelos governos com a listagem das obras e a respectiva responsabilidade de cada ente. A lista previa a realização de 50 obras de mobilidade, 25 intervenções em aeroportos e sete em portos. A Matriz foi sofrendo modificações: 29 projetos foram excluídos, e 28, incluídos. Há cem dias, apenas 15 obras haviam sido concluídas. De lá para cá, algumas foram inauguradas, mas outras serão terminadas após o evento. O aeroporto de Confins que o diga. O custo da Copa, previsto em 2007, seria de “apenas” R$ 2,5 bilhões, com os investimentos privados ocupando a maior parcela deste valor. No entanto, o custo atual bate em R$ 25,6 bilhões, com 83,6% (ou R$ 21,4 bilhões) de dinheiro público (parte via financiamento). Sem contar os R$ 1,1 bilhão de isenção de impostos que a Fifa e os patrocinadores tiveram do governo brasileiro. O número foi aferido pelo Tribunal de Contas da União. Talvez o ex-jogador Ronaldo Fenômeno estivesse certo ao dizer que “Copa não se faz com hospitais”. Os estádios ficaram prontos (vamos desconsiderar uns detalhes de acabamento incompletos no Itaquerão, por exemplo), mas as obras de infraestrutura não. O Brasil caiu no “canto da sereia” de que o Mundial traria um legado para o país. Que legado? O de obras incompletas? Esse já temos, de outros Carnavais. O país teria essas obras sem o Mundial? Provavelmente, não. As demandas alimentariam as promessas nossas de cada eleição. Imperou no “planejamento” o “jeitinho brasileiro”: nada de pensar o futuro. O prazo apertou, obras precisaram ser concluídas e o dinheiro do contribuinte foi utilizado sem dó. Explique para quem perde tempo no transporte público ou não consegue atendimento médico que era necessário cumprir compromissos com a Fifa. Não sei se foi esse “jeitinho” que o ex-presidente Lula queria que os estrangeiros conhecessem quando, em 2007, disse: “O mundo terá a oportunidade de ver o que o povo brasileiro é capaz de fazer”. Para os pessimistas, não há nada mais vexatório. Humberto Santos escreve interinamente a coluna de Murilo Rocha

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