A impossibilidade da memória

Longa venceu quatro prêmios no último festival de cinema de Brasília

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Despedida. Carlos Reichenbach se despediu como ator em “Avanti Popolo”
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Despedida. Carlos Reichenbach se despediu como ator em “Avanti Popolo”

A história de “Avanti Popolo” mistura uma narrativa de sucesso a uma de frustração. A primeira envolve o diretor uruguaio Michael Wahrmann, radicado em São Paulo desde 2004. Após ser bem recebido em festivais com seu primeiro curta, “Avós”, ele começou a pensar em seu próximo trabalho.

Intrigado pelas discussões sobre a Lei da Anistia e a ditadura militar que voltaram à tona nos últimos anos no Brasil, Wahrmann teve a ideia de falar sobre um pai à espera do filho desaparecido. “Ao contrário do filho morto, que você passa por um período de luto e superação, o desaparecido é uma paralisação”, explica.

Ele elaborou o projeto de um curta, que foi aprovado em um edital do governo do Estado de São Paulo. Só que durante a elaboração do roteiro, o que era um curta foi crescendo e acabou se tornando um longa. “Decidi fazer o longa com orçamento do curta, R$ 80 mil, e apenas seis diárias de filmagem”, recorda.

O risco foi recompensado. Após passar por várias mostras internacionais, “Avanti Popolo” participou da competitiva do Festival de Brasília do ano passado, onde recebeu o prêmio da crítica, além de melhor diretor e melhor ator coadjuvante para Carlos Reichenbach.

Dentro do longa, porém, o que era uma história de pai e filho acabou se tornando uma narrativa sobre frustração. “Avanti Popolo” acompanha André (André Gatti), que retorna da Rússia após anos no exílio, e usa imagens captadas em Super-8 nos anos 70 para tentar reavivar a memória do pai (Carlos Reichenbach), que há 30 anos espera seu filho desaparecido.

O longa de Wahrmann parte desse fiapo de trama para discutir o papel histórico das imagens como possibilidade de memória e diálogo entre gerações. Mas apesar do esforço de André, sua tarefa acaba atestando a impossibilidade desse diálogo, algo que reflete a própria experiência do diretor.

“Tem a ver com a nossa frustração como cineasta de tentar trazer assuntos fortes à tona e nem sempre conseguir”, elabora o uruguaio. Para ele, o filme revela a incapacidade do cinema de trabalhar a memória, já que, com o tempo, as imagens perdem o significado. “É uma tentativa de expressar minha angústia como cineasta diante desses eventos gigantescos”, confessa.

Em uma determinada cena, André vai atrás de um técnico para consertar seu projetor Super-8. Vivido por Marcos Bertoni, o personagem apresenta ao protagonista curtas que ele produziu “redublando” outros filmes e acrescentando narrativas anti-imperialistas e politizadas – algo que ele chama de “Dogma 2002”.

Ali fica clara essa ideia de “perda do significado” que Wahrmann quer discutir. Nenhuma imagem diz hoje o mesmo que ela representava 40 anos atrás. Elas são, na verdade, ressignificadas por quem as utiliza, e novamente por quem as vê.

Isso é reforçado pelas próprias imagens em Super-8 mostradas no filme, que foram encontradas por um amigo do uruguaio e reapropriadas como um relicário da família da trama – nós vemos o que queremos ou podemos ver. “O filme é a desilusão desse papel do cineasta como ligação entre memória e história”, analisa o diretor.

Para dar vida à discussão, o cineasta contou com um elenco especial. O protagonista é vivido por André Gatti, professor de Wahrmann na Faap. “Escrevi pensando nele, um ar depressivo, decadente. Chamei e ele começou a trabalhar comigo no roteiro”, conta.

Mas o destaque, e que subverte toda a discussão do papel histórico das imagens, é a participação do grande cineasta Carlos Reichenbach como o pai de André. “Estava mostrando meu curta em um festival na França em que o Carlão estava sendo homenageado. Conversamos, tomamos um vinho, vi que ele era parecido com o André, cabelo grande, barba comprida. Convidei e ele aceitou”, lembra.

Inadvertidamente, a performance de um homem frágil e à beira da demência se tornou o último trabalho na tela grande de um dos maiores nomes do cinema brasileiro, falecido em 2012. “Como bom diretor, ele sabia interpretar. E sua presença no set foi um presente para todo mundo”, reverencia.

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