Sob véus do passado

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Mais uma vez, olha a fotografia em sépia em que uma moça bonita de olhar profundo lhe sorri. Moça que, aos 17 anos, saiu da fazenda para a cidade. Iria se casar. O noivo, nove anos mais velho, filho do amigo do pai. Gente de posses, família renomada, de boa índole, como gostava de dizer a mãe chorosa e antecipadamente saudosa da única filha, que iria partir. Menina-moça, mais menina que moça, acometida por inquietações, curiosa sobre o jovem a quem, tão logo conheceu, já foi prometida. – Mãe! Como irei me casar com um homem que vi apenas uma vez? Deixar a casa, a família... Viver com pessoas que nem sequer conhecia? Inutilmente, tentava fugir do destino que lhe haviam reservado. Na mala, os poucos pertences. A camisola de cambraia branca, com rendas e botõezinhos em forma de flor. – Esta é para a noite! – explicava a mãe, cheia de recalques na hora de dizer certas coisas. Ruborizada, sentou-se no quarto da filha, explicando a ela o que nunca soube quando se casou; assustada, saiu correndo do quarto e do pobre marido, 15 anos mais velho. Também na mala, o diário escrito desde que se aprimorou no jogo das palavras. Sua vida tranquila, ajudando nos afazeres, a escola para moças na cidade mais próxima, as colheitas, o curral... As aulas de religião, bordado, francês e latim. Mesmo morando no “fim do mundo”, desses caprichos o pai não abria mão. Tantos anos se passaram, e o diário, castigado pelo tempo, assim como a fotografia, foi o que restou. O sorriso enigmático, perdido em dúvidas e ansiedades. O vestido de noiva feito em linho, os seios despontando tímidos sob os véus que lhe adornavam os ombros. A jovem não entende por que a história de sua trisavó, escrita em letras miúdas, lhe atrai tanto. Guarda o diário como o bem mais precioso. Não somente os cabelos castanhos, mas também o delicado nariz e os olhos profundos se assemelhavam aos seus. Mas foi nas letras miúdas que descobriu as maiores semelhanças, a melhor herança... No dia de se casar, sozinha em seu quarto, passeou os dedos sobre o vidro opaco que, há uma eternidade, protegia aquele rosto bonito. Outros tempos, outro contexto. Nenhuma expectativa ou medo da “primeira noite”, pois, intimamente, ela e o noivo há muito já se conheciam. Sua camisola, confeccionada em seda, nada de rendas ou botões floridos. Não se mudaria para a casa da sogra, mas para a sua própria. Não falava francês, não entendia latim, odiava mato e cheiro de esterco e, mesmo assim, no âmago da alma, sentia, claramente, que aquela moça, vinda de longe e da mesma origem, havia renascido nela. Sabia que era maluquice, por isso nunca tinha compartilhado sua certeza com ninguém. Olhou-se no espelho, ajeitando a grinalda de tule. Deu um sorrisinho bobo, sabendo que sua escolha era a mais certa. E que seu destino seria tão denso e promissor como o da mulher que a despertara para a vida. E, assim, feito ela, seria feliz, muito feliz!

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