Juliana Silveira: na fase do mal

Atriz fala à SuperTV sobre as dificuldades de viver a vilã Priscila, sua nova personagem, na novela ‘Vitória’;

iG Minas Gerais | RENATO LOMBARDI / PAULA HOELZLE |

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Esqueça as boas moças que só fazem o bem e lutam pela sua felicidade e também daqueles que estão ao seu redor. Juliana Silveira, agora, vive uma nova fase em sua carreira e encarna, pela primeira vez, uma vilã em novelas. Priscila, personagem que ela interpreta em “Vitória”, folhetim que estreou recentemente na Record, é muito polêmica – de classe alta, ela é doutora em história e também uma neonazista violenta e fria. 

Para a atriz, o novo desafio foi muito bem recebido, mas ela não esconde as dificuldades em dar vida a uma personagem tão complexa e, por isso, afirma: “Ela vai ser uma vilã que não vai ser amada pelo Brasil”.

Priscila, sua nova personagem, é bem polêmica. Como foi a sua preparação para esse papel? Tive que assistir a uma palestra com uma historiadora, professora universitária, para introduzir um pouco a história, desde o início da Segunda Guerra Mundial até o neonazismo. Também recebi da direção da novela referências de filmes para assistir. Eu e outros atores participamos de um workshop de motocross porque é o hobby dos personagens, então tivemos que aprender a andar de moto. E claro que há o fator psicológico, que é o estudo do ator mesmo. Ou seja, é você sentar com o texto e encontrar formas de fazer cada cena.

Qual a principal dificuldade de viver um papel tão forte quanto esse em “Vitória”? Eu já travei muitas lutas com a Priscila (risos). Porque em um primeiro momento fiquei muito feliz quando recebi o convite e disse: “Finalmente uma vilã”. Aí veio a notícia de que ela era uma neonazista. Quando comecei a me aprofundar no assunto, me deprimi, fiquei mal. Chegou uma hora em que eu peguei e parei de focar nesse assunto, pois não estava conseguindo me identificar em nada com a personagem. Aí, eu falei: “Gente, eu preciso gostar dessa personagem ou eu não vou conseguir fazê-la”. E aí eu esqueci um pouco essa história do neonazismo e fui mesmo pelo caminho de uma mulher mesmo má. Ela é má, ela é cruel, ela realmente acredita que está fazendo um bem para o país interceptando os nordestinos – os nordestinos vão chegar ao Rio de Janeiro e ocupar o lugar de uma pessoa que ela acha que é mais bem qualificada. É uma ideologia, é uma doença. Ela é cruel.

Hoje, então, você lida melhor com essa situação? É o famoso “um dia de cada vez”. Quando se tem uma coisa muito difícil ou se está passando por uma fase muito difícil na vida a gente sempre fala “calma, vai terminar, é um dia de cada vez”. E com a Priscila eu vivo assim, é um capítulo por vez, não fico mais pirando e pensando muito nela, porque a carga fica muito pesada pra mim e acaba me atrapalhando artisticamente.

A sua personagem, junto com o grupo dela, vai perseguir nordestinos, negros e gays. Na sua opinião, qual é a importância de trazer essa discussão para a TV? Quando você estuda para fazer o personagem, você começa a perceber coisas que se encaixariam na ideologia. Começa no princípio básico de você se achar superior a alguém. Isso faz parte do ser humano. Em algum momento da vida, a gente se acha superior a alguém – ou eu sou mais inteligente, ou eu sou mais engraçada, ou eu sou melhor profissional. Isso já não é um comportamento bacana. E tem questões políticas, religiosas, de racismo... então, aí você vai aprofundando. É muito difícil você pegar pessoas pertencentes a esse grupo. Por exemplo, tem um ataque a um casal gay na avenida Paulista, em São Paulo. Quem foi o autor da agressão? Foi um neonazista? Faz parte de alguma organização? Não dá pra saber. A polícia poderia enquadrar essa pessoa nesse grupo? Poderia. Mas ele de fato é, ele se assume como membro desse grupo? Esse é o grande lance desse tipo de gente. Porque eles fazem as ações, mas não tomam pra si a responsabilidade. Então a polícia não tem como pegar. Eu leio jornal e vejo situações que poderiam se encaixar na minha personagem. Porque é isso que nós vamos mostrar na TV, que eu gostaria que as pessoas entendessem, e que é crime. Não existe superioridade, existe, sim, a diversidade e a igualdade.

E qual é a sua expectativa em relação à receptividade do público sobre as maldades da Priscila? Eu vou ficar extremamente assustada se alguém se identificar com a minha personagem. Ela vai ser uma vilã que não vai ser amada pelo Brasil, como vem acontecendo. Porque eu acho que esse é o lugar certo da vilã. É muito esquisito gostar das pessoas que têm conduta de caráter ou de comportamento duvidoso. É assustador! A Priscila não é uma pessoa legal, ela foi feita para as pessoas odiarem.

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